Animais Fantásticos

[Crítica] Animais Fantásticos e Onde Habitam

Escrito por Igor Moretto

Hoje fui em uma sessão de Animais Fantásticos e Onde Habitam feita para a imprensa nacional e assisti ao filme com vários outros veículos de comunicação. Trago a vocês minhas considerações iniciais sobre o longa e sem spoilers. No final do post há uma lista de deliberações spoilerzentas sobre o longa. Cuidado!

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Quando fiquei sabendo que Animais Fantásticos e Onde Habitam, aquele livrinho minúsculo sobre criaturas mágicas engraçadinhas, viraria filme, eu meio que achei uma ideia estranha. Gosto da ideia abandonada do mockumentário, e senti, em 2013, que não havia motivo pra não confiar em um filme escrito pela mesma pessoa que tinha escrito a série “Harry Potter”, que me faz até hoje suspender a criticidade. Vamos aguardar, pensei.

Faltando alguns dias pra estreia, notei que meus ânimos estavam muito acima do normal. Nem para filmes de “Harry Potter”, ou até mesmo livros, eu me lembro de ter ficado tão ansioso. O filme começou e eu já nem sabia o que pensar mais. Mas foi por pouco tempo. Vou começar a crítica com o que considerei negativo, e depois entro no que é com certeza a maior parte desse filme: o lado bom.

Ele já começa, claro, com o tema de “Harry Potter”, que muitos conhecem como “Hedwig’s Theme”. E achei que essa fosse ser a única utilização dele, portanto nem me preocupei, mas não. Toda vez que alguma coisa mágica ou relacionada às criaturas aparecia, ele voltava, me deixando meio encasquetado. Será que eu estou considerando esse tema menos importante do que ele é? Desculpem os fusquinhas, mas o rosto do Daniel Radcliffe de 11 anos aparece na minha cabeça sempre que essa progressão de notas é usada. Eu não consigo achar que ele se encaixa nessa franquia, do mesmo jeito que eu queria que algumas coisas fossem resetadas para essa nova leva de canon.

O estilo do figurino sempre foi grande vítima das minhas críticas a série original de filmes. Bruxos não foram caracterizados como são nos livros, comicamente fora de moda. Rowling deixa explícito sempre que pode a dificuldade dos bruxos em se vestirem como trouxas, e faz entender que capas e vestes são padrão, e que calças ou cores monocromáticas são conceitos desconhecidos por essa comunidade. Os filmes de ”Harry Potter” destruíram esse aspecto do universo. Mas aqui dou um desconto. Preciso rever o filme para entender algumas questões que me vieram à mente em alguns momentos em que a moda americana bruxa parecer ser mais sutil por causa das leis estritas de sigilo.

Queenie e Jacob é o primeiro casal trouxa-bruxo que tem destaque na série, e um dos problemas do filme infelizmente veio com o relacionamento dos dois. Rowling é a rainha do desenvolvimento de personagem e relações, mas a escassez de tempo machucou um pouco dessa maestria. Os dois parecem se apaixonar à primeira vista, e não há qualquer conflito que os separem ou faça com que essa paixão seja confirmada. Desconfio que a ideia tenha sido criar essa paixão súbita por causa da habilidade de Queenie, que é legilimente, ou seja: lê mentes; mas o tiro saiu pela culatra.

Porém chega de falar do que me deixou triste. O filme é fantástico (hehe)! Ele traz o mundo de J.K. Rowling às telas como nunca antes qualquer filme de ”Harry Potter” trouxe, e o envolvimento da autora no roteiro me faz achar que Yates é, realmente, um diretor que faz o que mandam. Isso mesmo, Rowling! Manda nele.

Rowling soube dominar o filme com o roteiro. Diálogos que só ela poderia ter escrito e a narrativa palerma que transforma qualquer coisa em mágica foram essenciais para que tudo fosse aproveitado da melhor maneira possível por Yates. A autora traz consigo o problema de seus livros. O primeiro ato é repleto de ação, e o segundo, já mais calmo, é utilizado para a apresentação de conceitos e personagens, o que cria um problema no rítimo e pode atrapalhar alguns dos espectadores casuais, mas que logo se resolve com a apresentação do conflito principal do filme.

Animais Fantásticos e Onde Habitam é um filme inesperado, com muitas adições ao canon e que responde perguntas que o fandom nunca esperou que fossem respondidas. É uma continuação justa e feita com carinho e cuidado.

SPOILERS

O QUARTETO

Newt, Tina, Queenie e Jacob são os novos Harry, Ron e Hermione, só que não. Quase nenhum dos quatro tem alguma coisa parecida com as características básicas dos três da série original. A personalidade de Tina é uma das mais complexas dos quatro, e Katherine Waterston faz um trabalho incrível na interpretação de seus medos, inseguranças e autocrítica, com olhares de canto de olho, meio desengonçada, desconfortável.

Jacob, pelo contrário, parece tão acostumado com sua vida patética que até mesmo na aventura age como se nada fosse novidade. Dan Fogler é uma incógnita em tela, e às vezes, arrisco dizer, fiquei meio confuso, mas imagino que seu lugar na história ainda não esteja fazendo sentido pra mim, então prefiro não arriscar.

Queenie é interpretada pela Alison Sudol, que é tão linda e fofa quanto a personagem, mas se distancia quando a questão é a ingenuidade e a abordagem de seu dom, a legilimência. Ela entendeu qual é o seu propósito em vida e está satisfeita com sua posição no MACUSA e seu papel na sociedade.

Finalmente, Newt. Ele é inesperado e original. Um personagem com tanta convicção no que faz e no que é que até mesmo depois de ser flagrado em diversas cenas do crime, apenas desaparata e seu senso de ética o acalma. Eddie Redmayne, quando tem mais liberdade, incorpora muito da coreografia afetada que é sua marca registrada de maneira mais realista que em filmes biográficos.

OBSCURUS & OBSCURALS

Um dos segredos mais bem guardados do filme foi esse. Credence é o vilão. Mas não Credence, e sim seu Obscurus. Yates consegue fazer com que achemos que Modesty é a Obscural. Por exemplo, sempre que o Obscurus é mencionado como arma ou sua existência é explicada, o próximo take, ou a transição, nos leva para Modesty e sua canção anti-bruxaria. Yates brinca com nossa ideia de que o clichê vai acontecer. É assim que quando Credence se mostra bruxo, e ainda por cima o Obscural, o público se espanta.

Ezra Miller faz um trabalho excepcional no papel de Credence, e sua repressão é difícil de assistir. Mary Lou é praticamente a Umbridge 2.0. A backstory da repressão da magia é a mais interessante pro canon, pois pode acabar revelando um pouco mais dos motivos da morte de Kendra Dumbledore, e também sobre a morte da filha Ariana. Ela não foi reprimida pela mãe, mas sim por ela mesma. Talvez Ariana tinha um Obscurus? Talvez tenha sido isso que matou Kendra e que acabou com a vida da menina naquela batalha entre Alvo, Alberforth e Grindelwald.

SERAPHINA PICQUERY

Seraphina Picquery é mais um político incompetente, não é? Quando Tina tenta avisá-la sobre Newt, ela a dispensa, e logo depois, quando já não há mais o que fazer, pergunta o porquê de Tina não ter avisado antes. Eu fiquei com vontade de gritar pra tela: “MAS ELA TENTOU TE AVISAR!”

GRAVES

Onde está o Graves de verdade? Grindelwald provavelmente o matou, mas será que não podemos esperar um plot twist na série em que o Graves de verdade reaparece, assim como Moody voltou como um personagem do bem depois de Cálice de Fogo? A revelação de Grindelwald foi o maior choque da minha sessão, pode ter certeza. A polêmica de Johnny Depp passou completamente despercebida. Mas mesmo assim, será que esse sotaque que ele está fazendo é suficiente? Um ator americano fazendo o papel de um bruxo do leste europeu? Vamos acompanhar.

Sobre o autor

Igor Moretto

Igor já trabalhou como tradutor de conteúdo em diversos sites. Hoje, formado em Produção Audiovisual, procura alimentar o Animagos com novidades e é responsável pelo podcast mensal.