J.K. Rowling

Deixando de ser fã – Opinião

Foto em preto e branco de J.K. Rowling. Um close em seu rosto sorridente.
Escrito por Vinicius Ebenau

Quando cheguei, tudo isso aqui era mato.

Mentira, tinha uns prédios já.

No longínquo ano de 2008, eu entrava no finado ScarPotter.com, o predecessor do site onde você atualmente se encontra, o Animagos. Foram quatro anos passados lá, onde eu pude “trabalhar” com pessoas extremamente especiais, algumas as quais eu converso ainda hoje. Até que grande parte da equipe (incluindo gente que você conhece, como eu, o Renato e o Igor) se debandou em 2012, e o site acabou pouco tempo depois.

Não somente gostávamos um do outro como, principalmente, gostávamos bastante de “Harry Potter”, por isso, logo após nossa saída, discutimos sobre abrir outro site, o que não aconteceu. Foi apenas em 2015 que, finalmente, eu e o Renato tomamos as rédeas da situação e resolvemos abrir o Animagos, inspirados pela (então) trilogia de filmes de “Animais Fantásticos” que estava por vir.

(Fato curioso: o site tem esse nome porque a nossa ideia inicial era que cada membro tivesse um animal em que eles se “transformariam”. Nós éramos jovens e estúpidos.)

(Fato curioso 2: O meu animal era o urso.)

Print screen do primeiro layout do site, com uma imagem no topo da silhueta de seis animais: uma águia, um gato, uma borboleta, um cachorro, um urso e um leão. Ao fundo, vê-se a silhueta de Hogwarts.

Tá vendo aquela imagem no header? Então…

Enfim, o site foi lançado. O primeiro filme da trilogia que virou pentalogia, Animais Fantásticos e Onde Habitam, também. E, com eles, o Pottermore 2.0, o famigerado Mundo Bruxo de J.K. Rowling, a peça que não deve ser nomeada, o Portkey Games, as edições ilustradas, mais outros trocentos mesmos livros com capas diferentes, etc.

O “Harry Potter” que nós achávamos que tinha morrido (essa era uma das razões pelas quais não fazíamos outro site) estava muito bem, obrigado.

Estamos agora em 2018. Não faço mais parte do Animagos. Saí em outubro de 2017. Mas eu, obviamente, continuava fã dos livros. Continuava visitando os mesmos sites que eu visitava pra me manter informado. Continuava falando no meu Twitter sobre as sagas. Continuava seguindo a J.K. Rowling e tratando-a como rainha, como há tempos ela é tratada pelo fandom. Até decisões de algumas semanas atrás, que, lentamente, me fizeram gostar menos e menos de algo pelo qual passei parte da minha vida me dedicando.

Você, com certeza, sabe do que estou me referindo. Você também deve ter reclamado delas: as decisões de manter um possível agressor de mulheres empregado em “Animais Fantásticos” e a de não abordar a sexualidade do único personagem conhecidamente homossexual no segundo longa da série, Os Crimes de Grindelwald.

E não, a culpa dessas escolhas não é da Warner Bros. Não é dos Davids. Não é do Lionel Wigram ou muito menos do Steve Kloves.

É de J.K. Rowling.

Foto de J.K. Rowling posando em frente ao logotipo de Animais Fantásticos e Onde Habitam na première em Londres do filme em 2016.

É absurdamente incrível como uma reputação construída durante anos pode ser desmanchada em tão pouco tempo. A reputação de uma mulher que, hoje em dia, parece mais uma empresária do que uma escritora. Uma mulher que não é uma rainha ou uma deusa. É… uma mulher. Um ser humano. Como você e eu.

Apesar das polêmicas recentes ferirem os corações dos fãs, elas nos fazem abrir os olhos para o que, de fato, J.K. Rowling já fez em seu trabalhos a respeito da representatividade. Através dos livros de “Harry Potter”, ela nos ensinou lições de vida. Em entrevistas e nas redes sociais, comentou sobre inclusão, racismo, homofobia. Porém, mesmo assim, pessoas de minorias étnicas em suas obras são poucas, e o máximo de diversidade sexual que temos é uma personagem coadjuvante transexual no segundo livro de “Cormoran Strike”, O Bicho-da-Seda (personagem esta que, inclusive, foi removida da adaptação televisiva).

Não podemos esquecer que Rowling também foi uma vítima de violência doméstica. No entanto, ela aceita… Desculpa, pior ainda… Diz estar “genuinamente feliz” por ter Johnny Depp em um filme que ela roteirizou e produziu, em uma declaração que, apesar de deixar claro que ela poderia fazer alguma coisa sobre o caso, carece de qualquer sentimento nas palavras. Palavras vindas de uma autora que nos fez imaginar um mundo incrível.

Ninguém além de Johnny Depp e Amber Heard, sua ex-esposa, sabem o que aconteceu. Ela pode estar mentindo? Pode. Mas também pode estar dizendo a verdade. Apesar de J.K. Rowling e a produção dos filmes o julgarem inocente, o aparente comportamento de Depp entre quatro paredes dá a entender que existe uma real possibilidade de as alegações feitas contra eles serem reais. Assim, ele não pode ter espaço nessa série. Entretanto, terá. E isso é um grande risco tomado por parte daqueles que o apoiam.

É preciso perguntar: esse risco, vale a pena?

Foto de divulgação de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, que mostra Grindelwald e Vinda Rosier em uma rua trouxa.

Com a sexualidade de Dumbledore, o que mais incomoda, pessoalmente, é o fato de isso, até o momento, ser apenas headcanon, ou seja, literalmente, ser cânone apenas em nossas cabeças. J.K. Rowling disse que ela sempre viu Dumbledore como gay, entretanto, caso qualquer pessoa queira tratá-lo como hétero, pode. Não há um momento nos livros que deixa claro sua orientação sexual. Se, para você, Dumbledore é pansexual, então ele é. Quem pode dizer que não? A autora? Então peça para ela mostrar o contrário.

Nós aceitamos Dumbledore ser gay porque sua criadora disse que era, mas de pouco vale comentar isso em uma entrevista. Nós precisamos ver, nem que seja, ele dando em cima de outro homem. Precisamos ter uma confirmação clara, uma confirmação de que é cânone Dumbledore ser homossexual. Todos vão ter que aceitar isso, quer queiram quer não.

Rowling deixa outra oportunidade passar, outra oportunidade de agir ao invés de falar da boca para fora. Postar uma mensagem de solidariedade ou apoio na internet é fácil. Ser multimilionária e doar dinheiro para instituições é ótimo. Só que ela tem dois excelentes meios extremamente eficazes para trazer uma mudança de pensamento ao público geral: o audiovisual e o escrito. E ela os desperdiça.

É capaz de que no terceiro filme, cansada das críticas, J.K. inclua, logo na primeira cena, Dumbledore beijando alguém, e apesar de ela nos ter feito esperar mais dois anos por uma representatividade LGBT, antes tarde do que nunca. Como também é capaz de ela ignorar o desejo dos fãs novamente. E isso não é algo que ela pode deixar de lado, como uma minissérie/série de televisão dos Marotos (por que gostariam de ver quatro moleques babacas fazendo bullying a maior parte do tempo?), um filme sobre o passado do Voldemort (pessoal…) ou qualquer ideia martelada como boa por algum PotterTuber.

Foto de divulgação de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald. que mostra Dumbledore em uma sala de Hogwarts.

Porém, não é apenas J.K. Rowling que está me fazendo agir assim. Existe outro motivo, que está preso em minha garganta desde que entrei no ScarPotter: a maneira como a Warner Bros. promove “Harry Potter”.

Peguemos a última A Celebration of Harry Potter de exemplo. Apesar de ter um filme sendo lançado neste exato ano, não houve sequer um painel com os atores no evento. Nem mesmo o Dan Fogler apareceu! Trailer então, nada. Apenas um featurette foi apresentado que, por alguma razão, não foi exibido na noite de abertura, transmitida ao vivo.

Na mesma noite de abertura, foi mostrado o primeiro trailer do jogo de celular Harry Potter: Hogwarts Mystery, que já havia sido lançado uma semana antes. Para completar, anunciaram que Andrew Lincoln, o Rick Grimes de The Walking Dead e o cara das placas de Simplesmente Amor, narraria o audiolivro de Quadribol Através dos Séculos como se fosse uma grande novidade, sendo que a notícia tinha saído naquela tarde.

Por que não guardaram o trailer e o anúncio do audiolivro para o evento? Qual a dificuldade de manter algo por alguns dias, até algumas horas, para surpreender o público?

A cada ano, a Celebration of Harry Potter dá a impressão de ser mais sobre trazer gente ao parque da Universal Orlando e vender produtos do que, de verdade, ser sobre celebrar “Harry Potter”, promover o que vem de importante no futuro. Quase sempre os mesmos atores e mesmas atrizes vão lá, para os fãs fazerem e verem quase sempre as mesmas coisas. Este ano, teve a apresentação do Harry Potter Film Concert Series (que, eu admito, foi legal, apesar de que terminar com o final de Câmara Secreta tenha sido um golpe baixo), mas isso é apenas um lampejo de algo bacana e interessante em um evento que teve uma aula de como dançar como alguém da Beauxbatons e batalhar como alguém da Durmstrang…

Foto do Beco Diagonal do parque da Universal em Orlando.

A Warner Bros. não sabe divulgar “Harry Potter” para quem mais importa: os fãs. E isso vem não é de hoje. Para eles, nós devemos agradecer por tudo que eles nos dão, quando eles nos dão. Parecem pensar que ainda somos crianças, pouco exigentes, que ficarão contentes com tudo.

O que deve acontecer agora? Se não mostrarem o trailer de Os Crimes de Grindewald antes em algum programa matinal americano, com certeza devem exibi-lo na San Diego Comic-Con em julho, com Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Alison Sudol, Dan Fogler e toda a turma (quem sabe até Johnny Depp) na frente de centenas de pessoas que estão mais interessadas no próximo filme da DC Comics. E os fãs verdadeiros o verão em suas casas.

É preciso promover a série para o restante do público, claro, mas isso não significa que deve ser em sacrifício daqueles que fizeram de “Harry Potter” o sucesso que é.

Uma hora cansa ser tratado da mesma maneira há anos.

Foto de divulgação de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, com Dumbledore, Credence, uma maledictus, Leta Lestrange, Teseu Scamander, Tina, Newt, Jacob, Queenie e Grindelwald.

Se eu não tivesse deixado o Animagos antes, estaria deixando agora. Essa seria a minha carta de resignação, explicando os motivos. Esse longo desabafo talvez tenha expurgado de mim toda a vontade restante que tinha de falar sobre o Mundo Bruxo.

Eu deixei de seguir J.K. Rowling no Twitter. Eu pouco me importo com “Animais Fantásticos” e pouco me importo se eles resolverem fazer um filme de… dane-se, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada.

Eu agradeço pelos amigos que essas histórias me deram, pelo que eu aprendi com elas e por tudo que eu vivi. E é por causa disso, por me fazerem ser a pessoa que sou agora, que eu não posso suportar mais gostar de “Harry Potter”.

Como toda despedida, é difícil. Dói. Incomoda.

Mas, caso queira voltar, eu sei que Hogwarts sempre vai estar lá para me receber.

Sobre o autor

Vinicius Ebenau

Vinicius aprendeu com "Harry Potter" a valiosa lição que amigos são uma das coisas mais importantes que existem. Porque, sem eles, não teria pego emprestado a maioria dos livros para ler pela primeira vez. Formado em Cinema e Audiovisual, espera que a J.K. Rowling leia essa bio e dê uma chance a ele, pois faria um trabalho mil vezes melhor que o David Yates.