Animais Fantásticos Criança Amaldiçoada J.K. Rowling

J.K. Rowling comenta sobre seu envolvimento em Criança Amaldiçoada, Animais Fantásticos e mais

Foto de J.K. Rowling na estreia de Criança Amaldiçoada em Nova York. Ela está com o cabelo ruivo e usa um vestido azul. Ao fundo, uma placa com o nome da peça.
Escrito por Igor Moretto

Como nos velhos tempos, Rowling resolveu publicar em seu site oficial uma lista de perguntas e respostas sobre diversos tópicos, mas principalmente sobre seu envolvimento em projetos como os roteiros de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada e dos filmes da série “Animais Fantásticos”.

Por natureza sou bem solitária, portanto combino mais com livros, mas as colaborações com as quais me envolvi foram muito prazerosas, principalmente por causa das pessoas envolvidas.

Sobre Criança Amaldiçoada

Muito se especula sobre quão importante Rowling foi para a construção da estória roteirizada por Jack Thorne para a peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada. Sem economia de elogios ao roteirista e ao diretor John Tifanny, ela não entra em detalhes sobre o processo criativo, mas fala um pouco sobre o começo das ideias.

Eu contei a John e Jack o que imaginei que aconteceu com Harry, Rony e Hermione nos anos seguintes, expliquei quão focada estava no filho de Harry, Alvo, a quem foi colocado o fardo de não apenas um, mas três nomes lendários, e juntos criamos a estória que Jack escreveu.

Sobre “Animais Fantásticos”

Com um pouco mais de claridade, Rowling fala sobre sua colaboração na série de filmes “Animais Fantásticos”. Ela deixa claro que o produto final é de David Yates, e que muita gente colabora durante todo o processo de criação da história depois que ela entrega o roteiro, mas que ainda tem sua voz ouvida, como acontecia com os filmes de “Harry Potter”.

A Warner Bros. e David Yates, o diretor, sempre me deixaram ter minha palavra, apesar de não necessariamente a palavra final. Isso acontece com todos os produtores, dos quais sou apenas uma. Nossa opinião é levada a sério, mas é um grande esforço coletivo. O diretor é, no final das contas, responsável por tudo o que está na tela. Como roteirista, a maioria das minhas colaborações vem no começo do processo.

O lendário livro infantil

A autora também revelou que continua trabalhando no livro infantil que já virou lenda no fandom de “Harry Potter” desde que foi mencionado em 2007, depois da publicação do último livro da saga. Ela também escreve que já começou o roteiro do terceiro filme de Animais Fantásticos, que será lançado em 2020.

Acabei de terminar o quarto livro de Galbraith, Lethal White (Branco Letal, em tradução livre), e agora estou escrevendo o roteiro para Animais Fantásticos 3. Depois, vou escrever outro livro infantil. Venho trabalhando com a estória (não relacionada com Harry Potter/o Mundo Bruxo) por mais ou menos seis anos, portanto é hora de colocá-la no papel.

Você pode ler todas as perguntas e respostas abaixo, traduzidas em português.

Respostas a Perguntas
de J.K. Rowling, em jkrowling.com
Traduzido por Igor Moretto

1. O que você está escrevendo agora?

Acabei de terminar o quarto livro de Galbraith, Lethal White (Branco Letal, em tradução livre), e agora estou escrevendo o roteiro para Animais Fantásticos 3. Depois, vou escrever outro livro infantil. Venho trabalhando com a estória (não relacionada com Harry Potter/o Mundo Bruxo) por mais ou menos seis anos, portanto é hora de colocá-la no papel.

2. Como é um dia típico de escrita?

Tento começar a trabalhar antes das 9. Meu escritório é, provavelmente, meu lugar favorito no mundo. É no jardim, há mais ou menos um minuto de caminhada da casa. Há uma sala central onde eu trabalho, uma chaleira, uma pia e um banheirinho. O rádio fica geralmente ligado e com música clássica, porque eu acho a voz humana muito distrativa pra trabalhar, apesar de uma confusãozinha no fundo, como em cafés, ser sempre reconfortante. Eu amava escrever em cafés, e deixei isso pra lá com relutância, mas parte do sentido de estar sozinha no meio de um monte de gente era ser anônima e livre para observar pessoas, e quando você é a pessoa sendo observada, fica muito constrangida para trabalhar.

Quanto mais cedo começo, mais produtiva sou. Nos últimos anos tenho escrito o roteiro de Animais Fantásticos durante a madrugada, mas tento escrever apenas durante o dia. Se começo pelas 9, consigo trabalhar até umas 15 horas, quando preciso de uma pausa. Durante esse tempo escrevendo, bebo mais ou menos oito ou nove canecas de chá. Já que sou extremamente desastrada, prefiro comer coisas que não estragam o teclado caso caiam. Pipoca é o ideal.

3. Você colaborou em diversos projetos. Como funciona isso?

Por natureza sou bem solitária, portanto combino mais com livros, mas as colaborações com as quais me envolvi foram muito prazerosas, principalmente por causa das pessoas envolvidas.

Por dez anos disse não a propostas de adaptação de Harry Potter para o teatro, muitas vezes como musicais que usariam as histórias dos livros já existentes. Portanto quando conheci os produtores Sonia Friedman e Colin Callender, não tinha muita certeza do que ouviria. Só sabia que eles queriam fazer algo novo, o que era intrigante, porque eu não tinha desejo algum em voltar aos terrenos antigos de novo.

Não tinha como conseguir gente melhor para colaborar do que John Tiffany (diretor) e Jack Thorne (roteirista). Incrivelmente, eu e John nos conhecemos há alguns anos quando eu costumava escrever em um café no Traverse Theatre em Edimburgo. Quando nos encontramos pela primeira vez para falar sobre Criança Amaldiçoada, fiquei olhando pra ele e pensando “parece que eu conheço ele, onde o conheci?” Aí ele me contou e tudo pareceu estranhamente destinado.

Eu contei a John e Jack o que imaginei que aconteceu com Harry, Rony e Hermione nos anos seguintes, expliquei quão focada estava no filho de Harry, Alvo, a quem foi colocado o fardo de não apenas um, mas três nomes lendários, e juntos criamos a estória que Jack escreveu.

Tenho tantas lembranças maravilhosas dos primeiros ensaios, vendo o figurino e os efeitos pela primeira vez, mas o que me lembro com mais carinho de nós três trabalhando juntos são as risadas. Amei o processo do começo ao fim.

Me lembro particularmente do primeiro ensaio geral que assisti. Nesse ponto, sabia o roteiro de cabo a rabo, havia o ouvido lido completamente e assistido a algumas cenas individuais, mas nada me preparou para ver a peça inteiramente, no teatro. Achei incrivelmente emocionante e me trouxe um tsunami de memórias dos dezessete anos que passei criando os personagens e escrevendo os livros de Harry Potter. John e Jack fizeram um trabalho incrível. Poucas pessoas entraram no mundo comigo, e isso cria uma ligação particular.

A grande diferença do teatro e do cinema, pra mim, é a escala. Quando vou aos estúdios da Warner Bros. em Leavesden e vejo milhares de pessoas trabalhando em Animais Fantásticos, construindo cenários, criando figurinos, fazendo efeitos digitais, criando modelos e objetos e todas as outras centenas de coisas que acontecem quando fazendo um filme, pode parecer completamente esmagador. Pensamentos aterrorizantes passam pela sua cabeça, como por exemplo “não posso quebrar meu braço, porque o trabalho dessas pessoas depende no término do roteiro que estou escrevendo.

No entanto, no coração do projeto há uma colaboração parecida com a que tive em Criança Amaldiçoada, dessa vez com David Yates, o diretor, e Steve Kloves, que escreveu sete dos oito filmes de Potter e é um produtor em Animais Fantásticos.

Apesar de ter observado Steve de perto nesses anos todos, achei que escrever roteiros é completamente diferente de escrever livros, e muito desafiador no começo. Basicamente, aprendi a escrever roteiros no decorrer do processo, sabendo que o filme seria com certeza feito, o que é, no mínimo, atípico. Steve me deu notas ótimas e energéticas. A que me fez rir mais alto foi quando eu escrevi que um personagem falava “eles são crianças!” numa versão inicial do roteiro. Ele disse “bom, a não ser que a gente escolha os atores de forma completamente errada, isso vai provavelmente ser óbvio”.

David agora conhece o mundo de Potter intimamente, depois de ter dirigido quatro dos oito filmes originais. Amo trabalhar com ele. Aprendo bastante só de escutar ele falando sobre imagens. Apesar de eu ter uma imaginação bem visual, tive que aprender o que é necessário ser dito em tela sem as palavras, e David e Steve que me ensinaram.

O negócio com filmes é que, não importa o quão frustrada você estiver com o processo de escrita do roteiro, pensando “nunca mais, isso é muito difícil”, quando você vai pro set de filmagem e entra num grande jogo de faz de conta, com os melhores fazedores de conta dizendo suas palavras, e vestindo as melhores fantasias, e com as luzes e a fumaça e a música, você fica, do nada, apaixonada pelo processo de novo.

4. Qual é, exatamente, seu papel como produtora? Quão responsável é você pela aparência e a atmosfera dos filmes?

A Warner Bros. e David Yates, o diretor, sempre me deixaram ter minha palavra, apesar de não necessariamente a palavra definitiva. Isso acontece com todos os produtores, dos quais sou apenas um. Nossa opinião é levada a sério, mas é um grande esforço coletivo. O diretor é, no final das contas, responsável por tudo o que está na tela. Como roteirista, a maioria das minhas colaborações vem no começo do processo.

5. Você escreve para os leitores ou para você mesma?

Essa é uma pergunta difícil de certa forma, porque um autor que realmente só escreve para si mesmo provavelmente não seria publicado. Ao mesmo tempo, concordo com o que Cyril Connolly disse: “é melhor escrever para si mesmo e ter um público do que escrever para o público e não ter a si mesmo.”

Com certeza escrevo para mim mesma no sentido que preciso escrever. É quase uma compulsão. Preciso escrever. Não me sinto eu mesma se não estou escrevendo regularmente, e me sinto cansada e estranha se não tenho o que escrever, o que hoje em dia nunca acontece, porque tenho muitos projetos acontecendo, por escolha. Também escrevo para mim mesma no sentido que preciso me sentir entusiasmada com uma estória para querer capturá-la no papel. Sei que não conseguiria escrever só porque sei que as pessoas querem. O impulso tem que vir sempre de dentro.

Por outro lado, nenhuma estória sobrevive se não tiver alguém preparado para ouví-la. Como um escritor, seu maior anseio é tocar, conectar, divertir ou consolar as pessoas. Não há nada mais maravilhoso do que saber que seu livro ajudou alguém a passar por um momento difícil. Penso nas vezes em que livros foram meu melhor consolo e fonte de força e me orgulho profundamente quando ouço que alguma coisa que escrevi teve o mesmo papel para outras pessoas.

Sobre o autor

Igor Moretto

Igor já trabalhou como tradutor de conteúdo em diversos sites. Hoje, formado em Produção Audiovisual, procura alimentar o Animagos com novidades e é responsável pelo podcast mensal.