Animais Fantásticos Os Crimes de Grindelwald

O artista covarde em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald – Crítica

Em uma cena do filme, Leta aponta sua varinha para Grindelwald, que está no centro do círculo de chamas.
Escrito por Igor Moretto

Você deve ter reparado que ainda não postamos qualquer crítica ou análise sobre Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, não é? Pois bem, hoje vamos começar a destrinchar o filme e o roteiro, e, com o tempo, tecer nossas críticas de forma calma e por partes. Hoje, falamos sobre David Yates e sua originalidade.

A inovação e o utopismo devem ser as maiores ambições de um artista. Não para ganhar prêmios ou receber elogios, mas para causar no espectador uma sensação de novidade e estranhamento que cause euforia emocional. Não querendo entrar na discussão acadêmica sem fim do “o que é arte?”, mas já entrando: a boa arte é a que excita emoções.

Albert Einstein já disse: “Se, a princípio, a ideia não é absurda, então não há esperança para ela”. E deve mesmo ter sido com absurdeza que David Yates leu a descrição das características do feitiço Protego diabolica, na cena 114 do roteiro original de Os Crimes de Grindelwald.

GIF animado de Grindelwald conjurando um círculo de fogo azul em volta de si.

GRINDELWALD
Protego diabolica.

Ele gira e conjura um círculo de proteção de chamas negras em volta de si. As saídas fecham.

Fugir de um desafio como criar uma visualização de “chamas negras” que seja ao mesmo tempo visualizável e compreensível em um ambiente como o da cena em questão – um anfiteatro escuro – é atitude de um artista medíocre.

O som que um sabre de luz faz em Star Wars, a visualização da linguagem falada pelos seres extraterrestres de A Chegada, os efeitos visuais usados para representar os poderes do Doutor Estranho, no filme de mesmo nome; são todos exemplos de como artistas ambiciosos empenhados na inovação podem tornar simples aspectos audiovisuais em ícones de obras, mesmo em blockbusters.

Yates e a equipe criativa de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald fogem do desafio imposto pela mente de J.K. Rowling e decidem alterar a cor das chamas, que no filme são azuis. Chamas azuis como em Game of Thrones, Doctor Who, Hellboy, Godzilla, e até mesmo Harry Potter (!!!). Caramba, chamas azuis que você encontra no conforto da sua casa, na boca do fogão!

Para ser artista, é preciso ter coragem. Talvez seja essa falta de coragem que faça com que Yates continue no cativeiro da Warner Bros., para poder fazer o que eles mandarem, sem reclamar. Para que pagar um estúdio de efeitos visuais que seria capaz de pensar em chamas negras incríveis se a gente pode simplesmente usar o fogo azul da biblioteca do After Effects que compramos para Harry Potter e o Cálice de Fogo?

Sobre o autor

Igor Moretto

Igor já trabalhou como tradutor de conteúdo em diversos sites. Hoje, formado em Produção Audiovisual, procura alimentar o Animagos com novidades e é responsável pelo podcast mensal.

  • Rafael Aveiro

    Preciso discordar de absolutamente todos os pontos desse comentário. A começar pela forma como funciona uma produção cinematográfica profissional; é absurdo achar que o diretor decide a cor do fogo como um rei. Na realidade, o que provavelmente aconteceu foi a equipe de arte do filme (composta pelo designer de produção Stuart Craig, presente desde A Pedra Filosofal, e muitos outros artistas) fizeram vários testes de conceito de chamas negras que, ao serem apresentados para os produtores (incluindo a própria J.K. Rowling) não passaram no critério de aprovação, possivelmente por não ser impactante, mas certamente pois se pareceria demais com outros elementos pretos no filme, principalmente o obscurus. Para remediar a situação, varias soluções foram sugeridas pela equipe de arte, e os produtores (J.K. novamente), optaram pelo fogo azul. Isso é óbvio não apenas pois é assim que funciona a produção de um filme deste tamanho, como também porque a aparência do fogo nada mais é do que radiação visível – luz. E não existe luz “negra”. Luz negra, como conhecemos, por exemplo, é roxa. “Então porque não usar fogo roxo, e porque repetir o fogo do Cálice?” Ora, é simples. Ambos os fogos são elementos mágicos criados para o propósito de julgamento. Nada mais natural que tivessem a mesma cor.
    David Yates não é a escolha perfeita para dirigir tudo do Mundo Bruxo, e eu também sou a favor da alternância de diretores, mas daí dizer que ele é covarde e que renuncia à arte em seu exercício da direção é simplesmente uma afirmação infantil e mal informada. Especialmente em se tratando de um filme no qual ele volta a honrar o belo trabalho visual de Ordem da Fênix e Enigma do Príncipe. Julgar um diretor menos famoso, que chegou na franquia no quinto filme, é fácil. Quero ver aceitar o lugar de Stuart Craig, diretor de arte e designer de produção, criador de Hogwarts como conhecemos, bem como TUDO que há no Mundo Bruxo, e criticar o trabalho dele por causa de um fogo azul. Melhor que isso, reconhecer que há quatro filmes agora, J.K. Rowling é também produtora, e lembrar que ela também tem poder de decisão dentro desses filmes e, portanto, as críticas também dizem respeito a ela. Críticas, como sempre, são muito bem-vindas. Mas é preciso conhecer para criticar com qualidade.

    • Igor Moretto

      No texto utilizei do trecho sobre as chamas negras pra poder ilustrar de forma simples a incapacidade de Yates criar algo tão conceitualmente inventivo quanto o texto original sugeria. Eu sei que não é Yates que cria, mas um filme é de seu diretor, e como Rowling mesmo já disse, “O diretor é, no final das contas, responsável por tudo o que está na tela.”

    • Alessandro

      Concordo inteiramente, Rafael. A crítica apresentada no artigo beira o ridículo, o autor desconsiderou totalmente a direção das cenas incríveis que compõem esta parte do filme; o discurso, os confrontos, Grindelwald controlando o fogo como quem rege uma orquestra e, principalmente, o desfecho épico. Foi a primeira vez que a magia teve um impacto realmente esmagante quando retratada no cinema, sem parecer algo infantil. Diminuir todo esse trabalho apenas à troca (muito sensata, visto que já se tratava de uma cena escura) é de uma insensibilidade absurda.

      • Igor Moretto

        Cenas incríveis que compõem esta parte do filme? Me desculpe, mas a gente claramente viu filmes diferentes… Edição bagunçada, enquadramentos que parecem ter sido pensados ali na hora, trechos que inexistem no roteiro. Grindelwald controlando o fogo como quem rege uma orquestra é rubrica do roteiro, nada a ver com o Yates.

  • bruno

    Amei, simples e direto. Acho que com o desempenho um pouco fraco do filme nos EUA e uma bilheteria final remediada nos 700 milhões, eles vão dar um fim no Yates, só vamos aguardar 2019 pra eles anuncia rum novo diretor, oremo pra termos uma nova visão de universo, Yates fez o que tinha que fazer ate Relíquias Parte 2 e embora ele seja um bom diretor anda se acomodando muito na sombra desse universo……

    • Gisele Oliveira

      Nah, acho que não. Desde a época de HP já havia a discussão do Yates só permanecer até o fim da saga (dirigindo 4 filmes) por ser um “pau mandado” da Warner/produtor, haja vista que houveram “divergências criativas” com o Mike Newell e o Alfonso Cuaron, por exemplo. Além do mais, acho que ele já assinou pros 5 filmes né? Tá assinado, não quebraram contrato do Depp, não vão quebrar o dele.

      • bruno

        Você compara um artista como Depp com um diretor? São duas coisas totalmente diferentes, se o filme não render aquilo que a Warner quer eles irão tirar o homem, certeza! O proprio Heyman disse em uma entrevista que Yates é cotado para os 5 filmes, não que ele esteja com contrato assinado para os 5 filmes..

        • Gisele Oliveira

          Eu comparei custos financeiros e de imagem por quebra de contrato, pois achei que o Yates já tivesse assinado pra pentalogia, mas como não é caso então é menos uma barreira pra warner fazer ele pegar o beco.