Animais Fantásticos J.K. Rowling

A autora na roteirista: Os Crimes de Grindelwald e Animais Fantásticos 3 – Opinião

Foto de J.K. Rowling com o cabelo ruivo e usando uma camisa azul.
Escrito por Vinicius Ebenau

Quando Animais Fantásticos e Onde Habitam foi lançado nos cinemas, seu resultado final foi, podemos admitir, uma grande surpresa. Era um filme coeso, com uma evolução clara na história, e adições importantes e interessantes ao canône do Mundo Bruxo. Claro, tem os seus problemas, como o fato de alguns personagens poderem ser melhor desenvolvidos e outros poderem ser completamente removidos, mas era o primeiro trabalho como roteirista de J.K. Rowling, e, com todo o ceticismo envolta dele, foi uma boa estreia. As dicas de Steve Kloves, roteirista de sete dos oito filmes de “Harry Potter”, parecem mesmo ter servido de grande ajuda, como a própria Rowling admite.

Dois anos depois, com a sequência, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, esperávamos uma Rowling mais à vontade, aprendido com os seus erros e focando em seus acertos. No entanto, chocantemente, parece que ela se perdeu. O que acabamos por ter foi um filme cheio de plots e subplots, com tramas um tanto que distintas, e que se convergiam aos trancos e barrancos. Continuavam e continuavam, aparentavam que iam até algum lugar, teriam ramificações, só para, então, terminarem abruptamente.

Não demorou para as redes sociais se encherem de críticas que a história do filme mais parecia a história de um livro. Que J.K. Rowling havia escrito um roteiro de 400 páginas que foi editado. Que havia muito mais.

O mais surpreendente foram os pedidos de J.K. Rowling, simplesmente, deixar de escrever os roteiros. Que ela deixasse outra pessoa escrevê-los. Claro, esquecem o que aconteceu da última vez que ela deixou outra pessoa responsável por uma história oficial se passando no mundo criado por ela.

É um pedido tão inconcebível para mim. Pedir que Rowling… pare de escrever. E é muito injusto colocar a culpa toda de um filme ruim em seus ombros. David Yates não tem nenhuma culpa, ele que supervisionou a escrita do roteiro? Onde estava Steve Kloves, que só tinha UM TRABALHO?

Mas, enfim. Deixo isso de lado por um momento. Pois eu só queria discutir sobre uma pequena parte de Os Crimes de Grindelwald. Uma que mostra bem as raízes de autora na roteirista J.K. Rowling, e que deveria idealmente ser podada por aqueles a ajudando com o roteiro.

A cena em que os personagens principais se encontram no mausoléu dos Lestrange.

O filme inteiro nos leva até essa cena. Um pouco antes da batalha final, do clímax, é onde acabamos por ter as nossas respostas para as principais perguntas do longa: o porquê de Yusuf Kama estar atrás de Credence, e qual o segredo que Leta esconde.

Só que as respostas são, exatamente, o problema desta cena.

O filme inteiro PARA para que Yusuf Kama possa explicar porque ele está atrás de Credence. E segundos depois, vem Leta para dizer que aquela busca dele foi uma perda de tempo, e poder explicar o motivo. Além de que a história de Kama poderia ser contada mais cedo, oferecendo um peso e uma tensão em sua busca por Credence maior ao espectador, o que se perde, especialmente, além do tempo, é o momentum da trama.

Veja, em um livro, nessa cena, o autor teria todo o tempo do mundo para ela. Poderiam se passar três ou quatro páginas com Yusuf e Leta contando sobre o passado de ambos. Porém, em um filme, Rowling não tem todo o tempo do mundo. E, também, não têm apenas diálogos para contar essas história.

Existe uma velha regra de ouro no cinema: show, don’t tell. Em português: mostre, não diga. O espectador, justamente, não está lendo um livro ou escutando um audiobook. Cinema é um meio audiovisual. O roteirista tem o meio da IMAGEM para contar a história que ele quer contar. Em um filme, ninguém quer que uma trama pare para que possamos ouvir alguém contando uma história. Porém, em Os Crimes de Grindelwald, J.K. Rowling interrompe a progressão do filme para nos dar flashbacks com uma narração em off.

É compreensível? É. Este é apenas o segundo filme de Rowling, enquanto ela já escreveu doze livros. Esta é a maneira com que está acostumada a contar uma história.

Porém, novamente: esta não é a maneira de se fazer em um filme.

A maneira ideal está, por exemplo, coincidentemente na série “Harry Potter”.

No livro de Harry Potter e o Enigma do Príncipe, sabemos sobre o passado de Voldemort principalmente através das memórias na Penseira. Mas não são apenas por elas. De vez em quando, o próprio Dumbledore contava para Harry sobre Voldemort, depois de mostrar uma memória ou ao invés de mostrar uma memória.

Já na adaptação cinematográfica, a única forma em que sabemos sobre o passado de Voldemort é através da Penseira. Dumbledore não conta absolutamente nada. Nós VEMOS o passado de Voldemort, não OUVIMOS sobre.

Mostre, não diga.

Steve Kloves acaba removendo todas as passagens em que Dumbledore fala sobre Voldemort porque, em um filme, elas não funcionariam. Ainda mais, as cenas das memórias envolvendo Voldemort não param a história. Não existe outra coisa acontecendo urgentemente que o filme deixa de lado. Cada cena faz parte integralmente do desenvolvimento da trama.

Sim, a história de Voldemort É a história de Enigma do Príncipe, mas, em Os Crimes de Grindelwald, as histórias de Yusuf e Leta são tão importantes quanto; a de Leta principalmente, porque é um dos plot twists do longa. Mas elas não são contadas da maneira que deveriam, de uma forma mais inventiva, que as conectassem melhor à trama geral do filme.

Com Kloves, nós temos alguém que entende o meio do cinema, enquanto que, com Rowling, não.

E, daí, eu volto para uma das perguntas que fiz: onde estava Steve Kloves?

Eu sei que é muito estranho me ler protegendo Rowling, depois de ter escrito – e causado uma guerra por dizer – como estava deixando de ser fã em parte por ações dela com a franquia. Entendo perfeitamente minha hipocrisia. Mas precisamos ser justos.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é um filme ruim. Rowling tem culpa nisso, claro. Eu mesmo já critiquei seu trabalho (que eu enxerguei não como um problema dela exclusivamente como roteirista, mas como storyteller). Entretanto, a culpa não é inteiramente dela pelo produto que foi entregue, e jogá-lá na fogueira não é certo.

O que resta para o futuro, portanto, é somente um pedido: se acalmem. O segundo filme de uma série em andamento de cinco não ser bom não é o fim do mundo. A série não tem que acabar por isso. Rowling não tem que ser demitida (como se a Warner Bros. tivesse A CORAGEM) ou resignar. Lembre-se que a roteirista de Os Crimes de Grindelwald é a mesma de Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Não estou dizendo para você ter expectativas com Animais Fantásticos 3.* Estou dizendo apenas que não adianta se martirizar por causa de um filme que só estreia no ano que vem (ou, talvez, não).

Dê um tempo para J.K. Rowling. Aproveite este momento de engajamento dos fãs. Lembra quando acabaram os filmes de “Harry Potter” e não tínhamos quase nada para falar?

Dê um tempo para Rowling.

Principalmente, dê um tempo a si mesmo.

*Eu, pessoalmente, sou da crença de que devemos nunca ter expectativas com qualquer filme, porque se for ruim, você já esperava, e se for minimamente bom ou até mais ou menos, você já saí satisfeito. Win-win situation. Fica a dica.

Sobre o autor

Vinicius Ebenau

Vinicius aprendeu com "Harry Potter" a valiosa lição que amigos são uma das coisas mais importantes que existem. Porque, sem eles, não teria pego emprestado a maioria dos livros para ler pela primeira vez. Formado em Cinema e Audiovisual, espera que a J.K. Rowling leia essa bio e dê uma chance a ele, pois faria um trabalho mil vezes melhor que o David Yates.