J.K. Rowling

J.K. Rowling confirma: você está sendo um babaca (uma defesa) – Opinião

Uma montagem com vários tweets de ódio contra JK Rowling. O primeiro diz que a popularidade da série arruinou algo ótimo. Outro diz "essa mulher morreu pra mim", outro "meu deus, como vocês aguentam essa mulher insuportável", outro "eu vou juntar dinheiro e dar um pulo no reino unido só pra dar um fim a esta mulher", outro "jk já foi melhor, amor. máscara da JK caiu tem muito tempo, maior chernobyl. Outro, "essa mulher força tanto", outro "Mano essa mulher inventa as coisas do nada e todo mundo fica chocado como se ela realmente tivesse pensado nisso a muito tempo, pode ligar o telão da militância, outro "meu pink money essa aí não ve faz tempo, harry potter e afins, maior chacota e forçação desde dos ultimos 20 anos, kkk"
Escrito por Igor Moretto

Ultimamente, J.K. Rowling tem sofrido ataques distorcidos à sua arte como escritora, à sua vida de filantropia e até à sua vida pessoal. Chegamos ao cúmulo de ouvir pedidos para que “tirem o Twitter dessa mulher”, ou acusação de loucura. Eu sei, eu sei. É tudo pelo humor. Mas será?

Desde 2012, com o lançamento do Pottermore, que prometia ser uma experiência imersiva conectada aos livros de “Harry Potter” com conteúdo inédito de J.K. Rowling, o público vem criticando o que chamam de “retcon”. Retcon vem de “retroactive continuity” (continuidade retroativa, em português), quando um aspecto de uma obra é alterado posteriormente ao momento em que foi estabelecido, seja lá por quê. Não é retcon porque J.K. Rowling NUNCA (atenção para essa palavra) alterou qualquer aspecto da série através de seus textos no Pottermore.

Mas, ainda assim, a crítica era válida em certo aspecto. Sentiam que, por causa das recentes atualizações ao canon, era difícil acompanhar um desenvolvimento que havia prometido concluir-se no sétimo volume da série. Até que tudo foi ladeira abaixo. Ao notar que o fandom de “Harry Potter” estava vivíssimo e muito bem de saúde, os veículos de mídia começaram a noticiar o conteúdo do Pottermore.

Colocar o nome “J.K. Rowling” seguido de “anuncia”, “revela”, “confirma”, ou qualquer verbo declarativo desses nas manchetes era a receita do sucesso! Cliques e mais cliques significavam dinheiro no bolso dos acionistas. Era uma mina de ouro! Além dos cliques, gerava-se engajamento. Milhares de comentários analisando a obra, comentando o novo fato. O fandom estava vivíssimo e muito bem de saúde.

Desde a publicação do último livro de “Harry Potter”, o mundo, e consequentemente o fandom, começou a se politizar e construir uma consciência social muito maior do que havia na época da publicação dos livros. As causas negra, feminista e LGBTQ+, depois dos levantes do final do século passado, estavam, finalmente, começando a ser tidas como movimentos importantes pela elite política e o público geral.

Rowling acompanhou a evolução do público e foi comentando sobre a extensão da representatividade em “Harry Potter” na exploração posterior do universo, depois de concluir a saga. Daí vieram as críticas. E até hoje ouvimos coisas como “se ela quer que Dumbledore seja gay, por que não colocou na obra?”

No dia 19 de outubro de 2007, Rowling estava em Nova York promovendo o lançamento de Harry Potter e as Relíquias da Morte e, quando perguntada por um fã se Dumbledore já havia amado alguém de verdade, Rowling respondeu: “Dumbledore é gay.” A platéia aplaudiu. Depois dos aplausos, a autora concluiu: “eu teria contado antes se soubesse que vocês gostariam tanto.”

Os anos 90 e o começo dos anos 2000 não foram exatamente os mais progressistas de que se tem notícia, e mesmo assim foi lá que Rowling deu a informação de que um dos personagens principais da obra infanto-juvenil mais importante da época era gay. E como ela mesma disse, se soubesse da receptividade positiva, talvez tivesse revelado antes (hipoteticamente nos livros).

Criticar Rowling por não ter falado sobre a sexualidade de Dumbledore na obra é anacrônico, pois leva em consideração o contexto em que vivemos, onde personagens gays existem em relativa abundância, e não o da época, onde o fato poderia destruir qualquer carreira por causa do apoio a causas que não fossem de agrado do grande público.

Os anos passaram, e o reacionarismo que nos trouxe ao pesadelo em que nos encontramos hoje, Bolsonaro presidente do Brasil, Trump nos Estados Unidos, Brexit na Inglaterra, etc., também floresceu no fandom. Você deve lembrar da campanha “Ele não” que fizemos nas redes sociais, que trouxe os argumentos mais impossíveis para os fãs de “Harry Potter” se sentirem confortáveis votando em Bolsonaro.

Notícias que tiravam do contexto algum trecho do Pottermore, ou que diziam que Rowling havia “anunciado” coisas que nunca nem tiveram a ver com ela, ou que eram interpretações bizarras de algum tweet sobre a escalação de Noma Dumezweni (que é negra) para o papel de Hermione Granger no teatro, enraiveceu os que não liam o texto além da manchete. Esses, os reacionários, estipularam uma nova verdade: Rowling perdeu o controle.

Esse reacionarismo trouxe consigo o gaslighting presente até hoje nas respostas de qualquer notícia com o nome de J.K. Rowling. A reação, mais do que as próprias notícias, solidificaram o ódio à autora. J.K. Rowling se tornou maluca, esclerosada, louca por dinheiro, cheia de boletos para pagar e desesperada. E o pior, as pessoas usam críticas legítimas para justificar o ódio. As pessoas dizem que o ódio é justificado por não haver personagens explicitamente LGBTQ+ em “Harry Potter”. É justificado porque ela curtiu um tweet duvidoso. É justificado porque ela folclorizou uma religião…

O reacionarismo sai da boca até dos socialmente conscientes: dos feministos, das mulheres, dos LGBTQ+. É um envergonhamento deliberado de uma pessoa que até ontem era chamada de “rainha”. É aplicada uma lógica que nem eles mesmos acham legítima. E é tudo pelo humor. Para ser cool. O grande filósofo Ranely já disse: “não gostar de algo popular não te torna automaticamente cool.”

Precisamos lembrar que Rowling saiu da lista das pessoas bilionárias da Forbes por causa de seu trabalho de filantropia. Que Rowling é fundadora de uma instituição destinada a tirar crianças de orfanatos e salvar suas famílias. Que Rowling é presidenta de uma instituição que ajuda pais e mães solteiros. Que Rowling dá todo o dinheiro que recebe por dois de seus livros para a Comic Relief, uma instituição de caridade anti-pobreza. Que Rowling foi uma das maiores doadoras para o início do Centro de Medicina Regenerativa da Universidade de Edimburgo, especializado no tratamento da esclerose múltipla.

Precisamos lembrar que Rowling ajudou a arrecadar milhões de dólares para o Dyslexia Action e o English PEN. Para a Haven Foundation e a Médicos Sem Fronteiras. Que ela doou mais de 250 mil libras para os esforços para encontrar a menina Madeleine McCann. Que doou o dinheiro arrecadado pela sua introdução a uma coleção de discursos do ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown para o Laboratório de Pesquisa Jennifer Brown. Que doou o equivalente à três anos de royalties de O Chamado do Cuco para a The Soldiers’ Charity.

Que tal começarmos a fazer humor com a mídia que usa do nome de Rowling para ganhar cliques? Que tal começarmos a fazer humor com o Pottermore, que é o real responsável por querer torcer até secar a franquia? Que tal começarmos a fazer humor com os responsáveis pelos filmes de “Animais Fantásticos”, que estragam os roteiros originais da autora? Que tal parar de chamar uma mulher de louca porque você viu o influencer que você gosta fazendo isso? Vamos?

Sobre o autor

Igor Moretto

Igor já trabalhou como tradutor de conteúdo em diversos sites. Hoje, formado em Produção Audiovisual, procura alimentar o Animagos com novidades e é responsável pelo podcast mensal.

  • Esther Greenwood

    AMEI o vídeo e o texto. Vocês disseram tudo que eu tenho vontade de dizer o tempo todo sobre essa bosta toda que vem rolando. As pessoas estão sendo desonestas e nojentas, e acham que estão fazendo isso em nome de representatividade e justiça social. Como eu sou feminista e defendo a representatividade das minorias, me sinto muito triste de ver tanta desonestidade sendo feita em nome de coisas tão importantes, quando na verdade as pessoas só querem xingar. Impressionante como não percebem os paradoxos no que estão fazendo em relação ao que dizem defender; quando a pessoa em questão é alguém que você tá afim de xingar, aí não precisa enxergar nuances, contexto histórico e estrutural, não precisa parar pra pensar, procurar na fonte original e interpretar baseado em fatos, e nem precisa ver a pessoa como um ser humano imperfeito, que assim como todos, não conseguiu entregar algo perfeito, mas está claramente tentando sempre melhorar e defendendo as coisas certas, no pessoal e no artístico. O mais triste é isso de ver todo o legado incrível de alguém ser reduzido a piadas maldosas e com o fandom ajudando nisso. Gente, quem é que em 2007 falaria sobre a homossexualidade de um personagem querendo “”””ganhar com representatividade”””? Nós que somos de minorias sempre sentimos falta de ser representados, mesmo que não fosse muito consciente, mas a gente não tinha nem 1/3 dos debates sobre representatividade que temos atualmente, como alguém acharia que ia “”ganhar”” com isso?? Ganhar o quê, e de que forma? É muito fácil com a bunda sentada na cadeira achar que escreveria algo perfeito ou muito melhor depois de ter amadurecido, aprendido, e estando num contexto temporal e social totalmente diferente. Ela foi proibida de publicar com o próprio nome no começo por ser uma mulher, sabe? Esse tipo de coisa todo mundo abstraiu pra não ter que enxergar a subjetividade e nuance das coisas e poder ficar xingando a vontade. Enfim, obrigado por serem maravilhosos, e desculpa o comentário textão, é que é muito raro eu poder falar disso com quem entende. rs

  • Rodrigo Job

    Sim, mas as discussões mantém o vigor do mercado em cima dos livros e produtos licenciados.

    • Lucas Gonçalves

      Exatamente Rodrigo… Ou será que todo mundo aqui acha que o pottermore não dá algum tipo de retorno pra J.K.???? Ninguém faz nada de graça nesse mundo, e o pottermore virou sim uma forma de impulsionar “midiaticamente” a franquia, que poderia sim ter sido muito bem encerrada na saga original…

      • Igor Moretto

        Não tem problema nenhum impulsionar midiaticamente a franquia… Não gosta, é só não acompanhar.

  • Um homem fazendo dinheiro: homão da porra, de respeito, inteligente, bem-sucedido.

    Mulher fazendo dinheiro: gananciosa, louca por dinheiro, insensível, superficial.

    O mundo precisa parar.

  • FINALMENTE ALGUÉM DISSE!!

  • Danilo Miranda

    Tudo que essa mulher gerou depois dos sétimo livro veio se deteriorando. A política enlouqueceu ela. Por ser uma pessoa pública e se valer disso ela é criticada. Depois do segundo filme de animais fantásticos, tive nojo de tudo que leva o nome dessa mulher. Se ela quer fazer protestos esquerdistas é direito dela, assim como é das outras pessoas de a criticarem por isso.

    • Igor Moretto

      Danilo, o texto não está falando sobre críticas, e sim sobre hate deliberado.

    • Rodrigo Job

      É difícil agradar à todos, adiciona-se à isto, o tempo todo. Também não gostei do segundo filme, mas também não gostei de algumas passagens da saga.

  • Sla

    Meu unico descontentamento com o tema é o uso da palavra presidenta. Pelo amor de Deus né, tao criando palavras.

    • Igor Moretto

      Sla, todas as palavras foram criadas.

    • Renato Delgado

      Oi, Sla! Acho importante esclarecer alguns fatos linguísticos para que esse seu argumento deixe de ser perpetuado:

      Primeiramente, absolutamente todas as palavras são criadas. Cada uma tem sua história particular, que é fascinante e pode ser apreendida estudando sua etimologia. Nenhuma língua vem com seu léxico pronto para uso e engessado: ao longo do tempo, novas palavras são criadas de acordo com a necessidade dos falantes (assim como outras entram em desuso).

      Em segundo lugar, o vocábulo que você diz não existir já estava registrado em importantes dicionários da língua antes mesmo de a discussão vir à tona com a eleição de Dilma à presidência. Cândido Figueiredo em 1899 já grafava a forma e a palavra “presidenta” consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e no Houaiss, Caldas Aulete e Aurélio.

      Em 1956, até foi criada uma lei federal (2.749) definindo que os cargos públicos ocupados por mulheres deveriam ser utilizados na forma feminina. Dessa forma, existindo um substantivo feminino para “aquele que preside”, por que não utilizá-lo?

      Por fim, é fundamental memorar a importância social do uso da palavra “presidenta”. Vivemos em uma sociedade patriarcal que só teve uma mulher na presidência na última década. É uma grande conquista que pode ser marcada na língua. Pode soar estranho, errado, mas te digo uma coisa: com o tempo,vai ficar cada vez menos. Assim como aposto que ficará cada vez menos estranho vermos uma mulher na presidência ou em cargos de grande importância, pode ficar tranquilo(a)! 😉

      • Lk

        A lei de 1956 define “(…)Devem portanto, acompanhá-lo neste particular, se forem genèricamente variáveis, (…)”. Então o uso da especifica lei como justificativa para o uso da palavra presidenta não é valido.

        • Renato Delgado

          A menção à lei não foi base de nenhum argumento, coloquei apenas como curiosidade. Em nenhum momento eu disse que a forma “presidente” não poderia ser usada também para mulheres. É a forma mais aceita, sem dúvidas, mas não é a única, inclusive está grafada há bastante tempo em dicionários e no VOLP (não que realmente importe isso, já que os falantes não devem se curvar a manuais de uso da língua já que somos nós quem a fazemos e moldamos para o próprio uso).

          O inegável é que o termo já existia muito antes de a Dilma ser eleita (se isso é importante para você e puristas da língua) e o vocábulo foi resgatado. Hoje em dia, ele é usado principalmente pelos defensores da equidade de gênero. Pergunte a si mesmo por que você tem tantos problemas com o uso de um termo e depois volta aqui pra gente continuar o papo.

    • Sidney Andrade

      amigo, todas as palavras são criadas

  • Lázaro Tanan

    Assim como é as redes sociais de hoje cheias de bizarrices e insultos que só de ver mesmo não tendo nada haver me incomoda, ainda mais quando se há injustiça e insultos, então prefiro um milhão de vezes abandonar as redes e me livrar de estar exposto há este tipo de pessoas e doença.
    Este tipo de fã, são fakes pra mim, tanto faz esse tipinho. Pessoas fakes que nao sabem o que querem,que procuram se apegar a fatos fakes. Vão ser fã de um heroizinho!
    Nem precisamos dizer que a porcentagem destas pessoas é insignificante.
    Como dizia Stephen King sobre Harry Potter: É preciso uma imaginação superior!
    Entendam de uma vez… Nosso mundo talvez seja o mais criativo e o que há uma possibilidade infinita de se criar novos universos e ricos em detalhes, com diversos recursos, e até mexer na história, porque não? Porque usamos Mágica! Depois que a Rowling colocou até, uma possibilidade de voltar no “tempo” há tantos anos, nada me surpreende tanto de estranho, se quiserem julgar o mundo de Harry, teriam que começar a julgar pelos livros iniciais, pois acredito ser a mesma coisa ou muito mais imaginativo, mas não se deixem levar por esta onda que estamos vivendo nas redes sociais de pessoas fúteis, ou mídia, popularidade da obra, não sejam influênciaveis!
    É melhor estar e acreditar em uma Gênia, que inclusive foi rejeitada por umas dez editoras que não acreditavam em seu sucesso, rs ha ha coitada das editoras ha ha ha. Ou acreditar em um bando de manés rsrsrs

  • O Visitante

    Típico texto de fanboy esquerdista que não enxerga mais de um palmo à frente do nariz.

    • Vinicius Ebenau

      Precisamos fechar o Animagos.

      Fomos decobertos.

    • Juh

      Conte-nos mais

    • Sidney Andrade

      me espanta alguém direitista gostar da saga da JK que é explicitamente esquerdista tb…

  • Lucas Gonçalves

    Concordo que muita gente da hate por todas essas questões…. Mas também têm quem achou uma palhaçada a própria criação do pottermore… Dá sim a impressão de que virou caça niqueis.

    • Juh

      Como um plataforma gratuita pode ser caça-níqueis?

    • Henrique Silva

      cê sabe que o Pottermore é gratuito né?

    • Caça-níqueis? Um portal 100% gratuito????

  • Amy Emy

    OBRIGADA POR ESSE TEXTO! Simplesmente fico muito irritada em ver como estão tratando a J.K (que é uma mulher simplesmente incrível). Inclusive, noto que muitas dessas críticas nem são verídicas – muitos só a atacam no twitter porque o amiguinho tá fazendo ou porque virou modinha atacá-la. E, inclusive, me pergunto onde essa galera que diz que ela devia ter posto a orientação sexual do Dumbledore estava em 2007, porque a nao ser que estivessem presos em alguma caverna, veriam que o mundo era muito mais conservador e reacionário, e que cristaos afirmavam livremente que a J.K tinha pacto com o diabo e coisas ainda mais baixas. Acho, inclusive, que boa parte da galera que a ataca jamais teve contato com os livros e que esses ataques não passam de modinha de twitter.

    • Esther Greenwood

      Cara, é muito modinha, eu tô vendo muita gente que não sabe praticamente nada sobre Harry Potter compartilhando memes e uns posts totalmente equivocados, com informações que nem é difícil saber o quanto estão erradas se pesquisar ou parar pra pensar! Gente que não acompanha nada, que não vai direto na fonte pra saber o que foi dito de verdade ou o que aconteceu de verdade e etc. E aí quem gosta de um ibope se aproveita e investe em fazer esses posts pra compartilhamento rápido, sabendo que todo mundo tá afim de xingar mesmo sem nem saber pq tá xingando direito, sabe? Tá uma merda.

  • Luis Fernando

    Matéria de um fanboy defendendo sua “ídolo”

    • Comentário de um hater sem censo de autocrítica.

      • Luis Fernando

        Chola mais,lendo com atenção é fácil ver como a matéria é completamente parcial,da para comparar com youtubers de games defendendo seu console ou torcedores defendendo seu time
        Leia outras matérias desse redator e comprove o quão partidário ele é