Podcast Animagos

Podcast Animagos #39 – O cancelamento de J.K. Rowling

TRANSCRIÇÃO

Narração: Igor Moretto
Transcrição: Sidney Andrade

A cultura do cancelamento, também conhecida como cultura do “call out”, se dá quando as pessoas expõem problemáticas de algum artista ou pessoa com grande influência política, principalmente nas redes sociais. É como “desmascarar” alguém imperativamente. Só que ela sempre teve um problema: não se faz necessário contextualizar a problemática. Você grita “J. K. ROWLING TRANSFÓBICA” em todo e qualquer tweet que menciona a autora e automaticamente sente que seu ativismo foi feito com sucesso. Mas e quando uma pessoa não entende o que é “transfobia”? Ou quer saber mais?

Sempre que eu tentei entender o que acontecia com  J.K. Rowling e seus likes e follows estranhos, fui acusado de querer passar pano. Quando quis relativizar, pra tentar chegar numa conclusão, meu pensamento foi travado por seja lá quem fosse que estava participando da cultura do “call out”. Então hoje, que já entendo a problemática e concordo com a conclusão, vejo que preciso fazer o que os ativistas que me negaram contexto não fizeram: explicar.

CAPÍTULO 1: CONTEXTO

Nos últimos anos, o Reino Unido vem discutindo a atualização do Gender Recognition Act, que foi atualizado pela última vez em 2004. As metas para essa atualização são: garantir que pessoas trans não precisem de diagnóstico médico pra ter seu gênero reconhecido legalmente, reconhecer identidades não-binárias e dar às pessoas trans o direito de autoafirmar sua identidade através de processos administrativos mais simples. O movimento que se autointitula Feminismo Radical, no entanto, acredita que isso criaria uma brecha pra que homens cis começassem a frequentar espaços exclusivos pra mulheres. Cis-gênero é aquele indivíduo que se identifica com o sexo que lhe foi designado ao nascer. A preocupação é que predadores sexuais se identifiquem como mulher apenas como forma e meio de se infiltrarem em lugares assegurados apenas pra elas. O problema é que essa preocupação das TERF se baseia nessa hipótese meio que exclusivamente. Não existe evidência nenhuma, em nenhum país onde a autoafirmação já é legalizada, em que coisas desse tipo tenham acontecido sistematicamente. Casos isolados aconteceram no Reino Unido. Mas as reportagens sobre esses casos são, na maioria das vezes, grandemente exageradas pra chegar à conclusão implícita de que mulheres trans não deixam de ser homens. E, como homens são abusadores, logo, as mulheres trans também são. Dentre essas feministas radicais estão também as do grupo que é conhecido como TERF. TERF significa Trans Exclusionary Radical Feminist. Em Português: Feminista Radical Trans Excludente. É, basicamente, a vertente do Feminismo Radical que acredita que, independente da forma como você se identifica, o seu sexo designado ao nascer é imutável. Ou seja, mulheres trans são homens, e homens trans são mulheres. E, com isso, elas  caracterizam qualquer mulher trans como um possível predador sexual e descartam necessidade de evidências estatísticas que comprovem que existam falsas trans. Pra elas, toda mulher trans é uma falsa mulher, um homem e, logo, um potencial predador sexual. Só que isso não é verdade.

Fabris: Então, eu me identifico como mulher trans.

Essa é a Fabris, eu conversei com ela um pouco depois do que tinha acontecido com a J. K. Rowling. Ela é fã de Harry Potter também. E veio explicar um pouquinho da vivência dela pra a gente.

Fabris: Então, ser trans, pra mim, é você não aceitar que a sociedade te imponha algo que você não é. Foi imposta pra mim uma identidade masculina na qual eu não me identifiquei, na qual eu sofri por anos, em relação a bullying. Sofri exatamente por não se enquadrar nisso. Então, pra mim, ser trans é você conseguir se libertar. Você voltar a viver aquilo que você deveria ter vivido sempre.

Eu conversei também com o Theo Flores, que foi mais uma das pessoas que respondeu nosso chamado nas redes sociais pra pessoas trans que quisessem falar sobre sua vivência e sobre o tweet da J. K.

Theo: Trans é aquela pessoa que não se identifica com o gênero que foi designado quando ela nasceu. Isso é independente da pessoa se sentir desconfortável com o corpo, ou não. Independente dessas questões particulares de cada um.

Fabris: Eu costumo falar que eu sempre fui uma mulher… Uma mulher, desde as primeiras lembranças. Eu me lembro com quatro ou cinco anos de idade, me identificando como uma menina e sendo obrigada, com o tempo, a me enquadrar em algo imposto.

Theo: No meu caso, sempre foi aquele clássico de sempre ter sido uma criança que não gostava de boneca… Então, eu sempre pedia carrinho, pedia Max Steel, bola, enfim… Eu estava sempre com os meninos da rua, brincando, jogando bola. Só que claro que nunca tinha lido, nunca tinha ouvido nada sobre pessoas trans. Meu primeiro contato, eu tinha uns 14 anos, mais ou menos… Foi assim, entre os 13 e 15… Foi o período da minha vida que eu mais me sentia péssimo em relação ao meu corpo. Então, foi o momento de maior disforia que eu tive. Eu tentava meio que me adequar, sabe? Foi o período que eu tentava usar vestido, que eu tentava usar saia. Eu pedia pros meus pais assinarem a Capricho, coisa do tipo, pra tentar passar enquanto uma menina cis. E eu lembro que, numa dessas, acho que era 2013… 12… Teve uma publicação da Capricho falando de um homem trans. Na Austrália, ou na Nova Zelândia, agora eu não tenho certeza. Que ele tinha conseguido passar por todo o processo de transição, todo o processo de retificação de documento, e ele tinha se tornado o primeiro trans a participar da liga de Rugby do país. E, naquele momento, eu fiquei meio balançado. Mas eu não fui a fundo pesquisar o que realmente significava, e tudo o mais. Passou uns dois anos, eu tinha uns 15 pra 16, eu comecei a namorar com uma menina, e ela tinha um contato maior com pessoas trans, com pessoas não-binárias. E ela me emprestou um livro, que é o “Todo Dia”, do David Levithan, eu acho. E tem um personagem, dentro da história, um personagem secundário, aparece em uma página só, mas ele explica, mais ou menos, como que o personagem se sentia em relação a isso. Como se fosse quase um conceito de ser uma pessoa trans. E, naquele momento, eu me identifiquei. Comecei a conversar com essa menina, na época. Agora a gente não namora mais. Então, a gente começou a conversar sobre isso, começou a me mostrar conversas e grupos no Facebook, de pessoas trans e pessoas não-binárias, e eu realmente comecei a entrar no universo, e tal. Isso já era 2014. Mas, em casa, até, sei lá, metade do ano passado, em 2019, isso era motivo de briga e tudo o mais. Então, eu nunca consegui ter começado a transição até julho de 19. Quando eu comecei a transição hormonal, comecei a tomar testosterona. Quando foi em outubro de 18, eu dei entrada no processo de retificação dos meus documentos. No caso, eu fiz só a certidão. Tanto que a certidão é de 2018. Aí, ano passado, em 2019, eu troquei praticamente todos os documentos, só falta trocar a minha carteira de motorista. Mas RG, CPF, Passaporte, enfim, tudo isso já tá com o nome retificado. O nome e o gênero retificado. E é isso…

Fabris: Cada um tem seu tempo. E eu, por exemplo, comecei a minha transição aos 40 anos de idade. Outras pessoas começam aos 15 anos, aos 20. A partir do momento que você se identifica como uma mulher e como um homem trans, e você fala, “nossa, preciso de apoio”; começa a conversar com amigos que você realmente tenha mais liberdade, com aquelas pessoas que você sabe que vão te apoiar. E procure um psicólogo, uma pessoa que possa dialogar com você, pra você poder tirar suas dúvidas. Eu falo que as minhas dúvidas, eu tive que tirar sozinha, por muito tempo. Aí, nesse processo, eu criei um personagem, pra poder sobreviver à sociedade, aos padrões. Até que, sei lá, uns três anos atrás, eu meio que chutei o balde. Eu falei, cara, não sou eu. Eu sou a Fabris, eu sou mulher trans, tá na hora de viver e ser feliz. Em vez de tentar agradar aos outros, eu quero me agradar.

Fabris: Mas eu conheci meio pelos filmes primeiro. Até pelos DVDs. Um amigo me emprestou os DVDs, eu vi os três primeiros filmes de uma vez. E a partir daí, foi história, a partir do momento que eu me apeguei, que depois eu li os livros… Assim, já tem cerca de 20 anos que você acompanha a trajetória, tudo… Os spin-offs, o desenvolver dos atores, você cria uma identidade com aquele mundo, com aquela forma de ver as coisas. Quando você pega a Hermione, que é uma personagem muito progressista, que é engajada, nunca aprovaria essa atitude ridícula da J. K. Em algum lugar, Hermione está olhando pra a J. K. e falando: “Tsc, tsc, tsc… Que coisa feia”.

Theo: Eu sou de 97. Nasci junto com Harry Potter, praticamente. Eu lembro que meu primo ganhou o livro da Pedra Filosofal, de aniversário. Só que meu primo nunca gostou de ler. E aí, geralmente, como minha mãe trabalhava de tarde, e eu ia pra a escola de manhã, eu ficava, de tarde, com a minha avó. E meu primo, na época, morava junto com a minha avó também. E aí, num belo dia desse, eu estava no computador, e tal, eu peguei o livro pra começar a ler. Porque ele não queria me deixar jogar, e eu fiquei de saco cheio e fui fazer outra coisa. E eu peguei o livro e comecei a ler. E eu comecei a gostar… Quando chegou em casa, minha mãe já tinha a Câmara Secreta também. Tinha a Pedra Filosofal e a Câmara Secreta, e ela deu pra mim. E eu comecei a ler. E toda vez ficava esperando comprar, esperando chegar na livraria pra poder comprar e ler, eu e minha mãe. Foi o primeiro livro grande, vamos botar assim, que eu sentei pra ler, foi a saga. Acompanhei e até hoje acompanho, de ver notícias dos atores, de ver gente compartilhando fan-art, ou coisa do tipo. O papel de parede do meu computador é de Harry Potter, então…

CAPÍTULO 2: AS MENTIRAS DAS TERF

Muitas características biológicas fazem um corpo ser masculino ou feminino. Desde a quantidade de pelos, a distribuição de gordura no corpo, e até as gônadas. Não raramente, também, as pessoas nascem com variações entre esses dois sexos, e elas são chamadas de intersexo. É comum ouvir gente falando sobre os cromossomos sexuais X e Y, que biologicamente determinam, tradicionalmente, o sexo do indivíduo, como se fossem centrais pra a discussão. Geralmente, mulheres têm a combinação XX e homens, XY. 

Fabris: Não existe só XX e XY. Existe várias nuances, várias possibilidades. E, a partir do momento que você transforma essa questão numa questão binária, zero ou 1, oito ou 80, você está deixando um leque muito grande de pessoas fora disso.

Mas, por acaso, você já analisou seus cromossomos? Você tem algum dispositivo que te permite ver os cromossomos das pessoas com quem você interage? Porque se a resposta for “não”, então os cromossomos não têm a mínima importância pra qualquer pessoa que não um médico. Isso não é relevante socialmente. O importante é: muitas das características biológicas que realmente importam no convívio social são mutáveis. Quando uma pessoa trans decide tomar hormônio ou fazer cirurgias plásticas, ela está, basicamente, alterando a sua biologia. O peito cresce, a rigidez dos músculos de certas partes do corpo diminui. E, em muitos casos, até a forma de pensar sofre alterações. Inclusive, pessoas cis-gênero também fazem cirurgias, tomam hormônios e alteram sua biologia. A diferença é que, às pessoas trans, isso não é considerado legítimo. Então, depois da transição, é impossível dizer que a biologia de um corpo é estritamente  de um lado do espectro binário. Homem ou mulher. E, mesmo assim, até testes genéticos não são muito confiáveis pra determinar o sexo de qualquer pessoa.

A doutora Fausto Sterling, professora americana de Biologia e Estudos de Gênero disse:

Existem muitas pesquisas científicas recentes neste tópico desde a década de 1950. Mas aqueles que esperam que a biologia dê uma definição fácil de se aplicar de sexo e gênero vão obter pouco consolo nas descobertas mais importantes. Por exemplo, sabemos que ao invés de se desenvolver na direção de um gene específico, os testículos ou ovários embrionários e fetais se desenvolvem na direção das redes de gene opostos, um reprimindo o desenvolvimento masculino enquanto estimulando a diferenciação feminina e o outro fazendo o oposto. O que importa, portanto, não é a presença ou ausência de um gene específico, e sim o balanço de poder entre redes de genes agindo em conjunto numa sequência específica. Isso enfraquece a possibilidade de usar um teste genético simples para determinar o ‘sexo’ real. Morfologia não é simplesmente uma questão de quais genes as pessoas têm, mas também quais estão sendo ligados, de que maneira, e em quais combinações e a forma como interagem.

O argumento que caracteriza pessoas trans como biologicamente do sexo designado ao nascer, então, é mentiroso e falacioso, porque se utiliza de teorias científicas de forma enviesada para embasar preconceitos. E eu estou sendo muito generoso em falar “teorias científicas” aqui, quando, na verdade, são só conceitos científicos.

Porém, nem todas as pessoas trans sentem necessidade de tomar hormônio, ou fazer cirurgia. Essa necessidade é chamada de disforia de gênero, e pode ser mais ou menos grave, dependendo da pessoa.

Theo: Eu acredito que existam pessoas trans, ou não-binárias, que, pra elas você tem que sentir disforia, achar que você nasceu no corpo errado e coisas assim, pra você poder se identificar enquanto trans. Eu não concordo, mas é o que eu sinto. Então, fica, mais ou menos, nesse conceito.

Existem, também, pessoas que não se identificam com o que é socialmente entendido como homem e mulher. Essas pessoas se chamam não-binárias. É difícil caracterizar a não-binariedade, já que é uma identidade que varia de pessoa para pessoa, mas algumas já foram cunhadas: genderqueer, agênero, bigênero, genderfluid e etc. Alguns estudiosos sul-americanos e africanos colocam a identidade “travesti” nessa lista. Um bom e comum método de fazer entender a não binariedade é usar a alegoria do espectro, de um extremo a outro, existem várias gradações, o que significa dizer que entre o extremo do gênero feminino e o extremo do gênero masculino existe toda uma gama de gêneros variantes.

CAPÍTULO 3: MAYA FORSTATER

Agora que a gente entendeu que as TERF não estão comprometidas com a verdade e, sim, com vontade de justificar seus preconceitos antiquados, vamos falar sobre uma TERF em específico que vai nos levar ao caso da J. K. Rowling: Maya Forstater.

Maya trabalhava no Center of Global Development, em Londres, e quando seu contrato terminou, a organização decidiu não renová-lo. O motivo foi que Maya havia recebido reclamações sobre suas posições transfóbicas no trabalho e no Twitter, e respondeu de forma agressiva e não conciliadora, criando um ambiente hostil de trabalho. Vamos aos fatos.

Em setembro de 2018, Maya comentou sobre Pips, ou Philip Bounce, diretor sênior de um banco multinacional sueco que se identifica como gender-fluid: ele/ela vive, dependendo do dia, como um dos gêneros masculino e feminino. Ela foi selecionada para uma lista das top 100 mulheres de negócios, o que causou revolta em Maya e fez ela fazer a sequência de tweets mais problemáticas mencionadas na denúncia:

Bounce não se ‘disfarça de mulher’, ele é um homem que gosta de se expressar de vez em quando usando um vestido.

É estranho que ele tenha se sentido no direito de aceitar o prêmio [top 100 mulheres nos negócios] ao invés de dizer ‘desculpa, houve um engano, sou um homem que contesta as normas de gênero.

Ele é um cross dresser de meio expediente que vive na maioria do tempo com o nome ‘Philip’.

Sim, eu penso que pessoas do sexo masculino não são mulheres. Não acho que ser mulher/fêmea é uma questão de identidade ou sentimentos femininos. É biologia.

Bounce é um homem branco que gosta de se vestir com roupas de mulher.

Depois dos tweets e de escrever um artigo no Medium sobre o assunto, em outubro de 2018, Maya recebeu reclamações sobre suas opiniões e posturas vindas de colegas de trabalho. Ela comentou sobre as reclamações:

Me disseram que é ofensivo dizer ‘mulheres trans são homens’, ou que ‘mulheres são humanos adultos do sexo feminino’. Entretanto, como essas afirmações são verdadeiras, eu vou continuar a dizê-las. Sim, a definição de fêmea  exclui machos, mas inclui mulheres que não se encaixam em normas de gênero. Debates políticos onde fatos são considerados ofensivos são perigosos. Eu, é claro, respeitaria a definição de identidade de gênero pessoal de qualquer pessoa e em qualquer contexto social e profissional. Não tenho qualquer desejo ou intenção de ser rude com as pessoas.

Acontece que a Maya não considera o Twitter, ou a internet, como fazendo parte do contexto social, pelo jeito. E nem tem uma noção socialmente consistente do que é ser rude.

Depois de não ser renovado o seu contrato, Maya se sentiu injustiçada e abriu um processo no Tribunal Trabalhista do Reino Unido contra seu ex contratante, alegando que tinha sido demitida por expressar sua opinião e crença. No final das contas, o juiz chegou à conclusão que: 1. Ela não foi demitida por suas opiniões e crenças; e 2. As opiniões e crenças dela não estão de acordo com o que se espera de uma sociedade democrática.

CAPÍTULO 4: J. K. ROWLING

Já há algum tempo, J. K. Rowling parece estar simpatizando com o discurso das TERF. Ela já curtiu tweets transfóbicos, e é possível encontrar várias TERF que apareceram recentemente na lista de pessoas que ela segue. Quando os primeiros tweets problemáticos foram curtidos, alguns meios de comunicação chamaram a atenção do público pra eles, e até pediram respostas à equipe da autora. A resposta foi: “foi sem querer”. O mínimo que a gente pode interpretar dessa mea-culpa é que, pelo menos inicialmente, ela entendia que a posição precisava de panos quentes. Ou, então, que ela não havia ainda consolidado a sua ideologia. Ora, talvez o que tenha trazido o assunto à mente da autora tenha sido o desenrolar da discussão sobre o Gender Recognition Act. Eis que chega o dia 19 de dezembro de 2019.

Clipe de áudio: Thank you. Twenty-five to nine is the time. Maya Forstater lost her job at the Global Development Agency early this year. Her crime? She questioned whether a person could change sex as opposed to gender.

A BBC faz uma matéria sobre o caso da Maya Forstater, e ele ganha notoriedade no meio das TERF. Alguns minutos após a matéria da BBC 4, rádio que Rowling já mencionou ouvir, veio o tweet. Em Português:

Vista-se como preferir.
Chame-se da forma que quiser.
Durma com qualquer adulto que consinta e que te queira.
Viva sua melhor vida em paz e segurança.
Mas forçar mulheres a saírem de seus trabalhos por dizer que sexo é real?
#EuEstouComMaya #IssoNãoÉUmEnsaio

Bom, vamos começar do fim. A Maya não saiu do seu trabalho por dizer que sexo é real, Rowling. O contrato dela não foi renovado por causa da sua animosidade para com as reclamações que seus colegas de trabalho fizeram, criando um ambiente hostil de trabalho. Esse ponto já mostra que Rowling não sabe do que está falando, ou escolheu falar assim do caso para insinuar as preocupações infundadas de que mulheres estão sendo silenciadas. Vários artigos do The Guardian, jornal de centro-esquerda britânico, mencionam o silenciamento das mulheres cis na questão das mulheres trans, e diz que suas “preocupações” não estão sendo levadas a sério. Mas, como o youtuber Shaun diz em seu vídeo “Transphobia in the UK”, elas aparentemente não gostam de falar de suas “preocupações”. Elas sabem que suas preocupações soam mal, mas elas não querem ser compreendidas, e sim atrasar o debate e a política. Essa é a tática delas: atrasar.

Fabris: Essa questão cientificista acaba sendo uma desculpa muito esfarrapada pra justificar o preconceito. Porque tem questão de construção social, tem várias questões que são além do biológico.

Quando a Rowling diz que Maya foi obrigada a sair de seu trabalho por dizer que sexo é real, ela está insinuando que ela foi injustiçada, porque ninguém em sã consciência argumentaria que sexo não existe. Ela está seguindo a lógica dos artigos do The Guardian, que não falam sobre a ideologia em questão, apenas comenta sobre a existência dela, sem contexto, pra fazer a discussão se prolongar. As TERF sabem que homens não vão se identificar como trans pra cometer abusos em espaços femininos, eles já fazem isso sem que essa possibilidade exista. É como se um homem quisesse se identificar como mulher pra estar de acordo com as regras do banheiro, ao mesmo tempo que não liga pra estar de acordo com a lei. Isso sem falar que mulheres que abusam de mulheres também são criminosas, não importa se estão num lugar misto, ou só pra mulheres.

Fabris:  Se você analisar todo o discurso, está uma escritora famosa defendendo uma pessoa que tinha uma opinião e não teve seu contrato renovado. Você olha, nossa! Se você pegar por esse prisma, você vê, vai colocar como defensora e a outra como vítima por ter dado uma opinião. Esse é o problema, você analisar só uma camada e não analisar o todo. O conteúdo. Isso é muito perigoso. Aliás, isso que, pra mim, é mais complicado, porque a J. K., enquanto pessoa, ela ser transfóbica, já é muito errado. O problema é ela ser uma pessoa que tem uma legião de fãs, uma pessoa que tem seguidores em todos os lugares, e ela propagar essas ideias, pra mim, é o pior. O problema é a quantidade de retweet, , a quantidade de curtidas. Porque isso mostra que esse engajamento dessas pessoas cria raízes.

Theo: Já dava pra ver, pelas coisas políticas que ela comentava, já dava pra ver, mais ou menos, qual era o alinhamento dela. Então, pra mim, pessoalmente, não foi nenhuma surpresa. Só que, pela primeira vez,ela sentou e falou com todas as letras. Essa é a única diferença. O que a gente tenta, justamente, no movimento trans em geral… Tem várias vertentes, mas a base em relação a essa pauta é justamente você não reduzir as pessoas ao sexo, no caso, ou à genitália. Acho que, em nenhum momento, o movimento trans fala que sexo não é real. A nossa tentativa é mais, justamente, fazer as pessoas pararem de priorizar isso. Ter o cromossomo XY (sic) faz parte da minha vida, mas não é isso que me define. E que não é por isso, também, que as outras pessoas devem simplesmente virar, como a Maya, e falar não vou te tratar no feminino porque a Ciência diz isso, sabe?

O que eu deduzo que a Rowling ainda não entendeu é que essa narrativa da “preocupação” das TERF nada mais é do que uma pós-verdade com tendências autoritativas. Ela já escreveu sobre tendências autoritativas, inclusive. Ela só está esquecendo que, talvez, dentro do seu feminismo branco e europeu, elas também possam existir.

No começo, eu falei como meu anseio por contexto e entendimento foi confundido com passar pano. E isso, pra mim, parece ser um dos maiores problemas da cultura do cancelamento: a negação do direito do contexto. As coisas são descontextualizadas em frases imperativas  e acabam por serem ou completamente agregadas ao comportamento ativista ou, então, gerando um senso de rancor para com ele. As pessoas querem saber o porquê da transfobia, do racismo ou do antissemitismo da J. K. Rowling. Se você os acusa de passar pano e rivaliza a relativização de qualquer assunto, afasta as pessoas do ativismo. Não adianta dizer que não é sua obrigação ensinar. Quando o que você está fazendo não é apenas não ensinando, e sim ensinando a coisa errada.

Fabris: Eu não sei se o cancelamento é algo que realmente exista. Eu, sinceramente, não sei se as próximas obras dela, se ela voltar ao Harry Potter mesmo, fazer alguma continuação; se eu vou ter o mesmo desejo de ler, de acompanhar. Não sei. Provavelmente, não.

Eu vi muita gente colocando a Rowling em suas listas de celebridades problemáticas e criando, portanto, uma afinidade por qualquer conteúdo que prejudique sua personalidade. Afinal de contas, é ótimo quando nossa ideia é confirmada e compartilhada, não é? A gente quer sempre fazer a coisa boa. A destruição da reputação de quem é nosso aparente inimigo é catártico, prazeroso e divertido. Só que isso não ajuda muito na conversa, e nem nos leva a qualquer lugar. A meta de quem pratica esse tipo de coisa, conhecida como trashing, é outra. Jo Freeman, cientista política, advogada, escritora e feminista dos Estados Unidos, disse, em seu ensaio “TRASHING”:

Trashing […] não é discordância, não é conflito, não é oposição. Estes são fenômenos perfeitamente normais que, se praticados mutuamente, honestamente e sem excesso, são necessários para manter um organismo ou organização ativo e saudável. Trashing é uma forma particularmente perversa de assassinato de reputação que equivale a um estupro psicológico. É manipulativo, desonesto e excessivo. É ocasionalmente disfarçado de retórica do conflito honesto, ou acobertado pela negação da existência de qualquer reprovação. Mas não é feito para expor discordância ou esclarecer diferenças. É feito para depreciar e destruir.

Theo: Meu posicionamento com Harry Potter nunca mudou. Inclusive, eu estou relendo os livros. Eu comprei eles agora em Inglês, pra poder reler. Só que em Inglês. A nível de realmente perder o respeito, não. É claro que, querendo ou não, meu encantamento, vamos botar assim, com o universo quebrou, mas em relação à própria J. K. e não em relação ao universo, em relação à saga, em relação aos livros.Mas eu acho que, realmente, agora que eu parei e estou relendo, eu consigo, com a cabeça que eu tenho hoje, sabendo esses apontamentos, eu consigo realmente ver as passagens que a galera reclama. E eu entendo por quê.

Fabris: Comigo, em relação à obra em si, eu acho que não muda muito. Porque, aquela coisa, tudo que eu vivi até hoje, todos os sentimentos, todas as emoções que a obra me passou… Todas as vezes que eu fui no cinema, todas as vezes que comprei na pré-estreia pra poder ver o final da saga… Isso não me vai ser tirado. Independente do que a J. K. faça, e que ela tem feito, muito errado, isso não vai… Seria até pior, sabe, seria uma frustração a mais. Além da pessoa ser transfóbica, ela ainda conseguir tirar algo de bonito, algo que foi importante na sua vida em certo momento.

Theo: Pra mim, não muda, a nível de consumo. “Ah, vamos boicotar tudo o que a J. K. faz”. Gente, não vai adiantar em nada. A mulher já é milionária, já tem o nome estabelecido. Harry Potter e Animais Fantásticos, enfim, o universo Harry Potter em geral já está estabelecido. Não vai ser a galera fazendo isso agora que vai mudar, sabe. Eu, pessoalmente, não vejo o boicote como realmente uma forma de resolver isso. Eu vejo mais como realmente o que eu fiz no dia. Sentar, entrar nos principais posts que tinha no Twitter, de gente comentando sobre… E sentar e conversar com as pessoas que ou estavam negando, ou estavam passando pano, e falar, “gente, isso aqui acontece desde tanto tempo…” E é isso. Acho que, realmente, parar, sentar e apontar tanto os problemas dentro da própria obra… A questão dos lobisomens como portadores de HIV, a representatividade péssima que ela põe em pessoas asiáticas, como é o caso da Cho. Então, eu acho que é realmente sentar, apontar esses problemas, tanto da J. K. nas falas políticas dela nas redes sociais, quanto esses problemas que a gente vê na obra. Acho que é isso que realmente faz a diferença, ao invés de falar para as pessoas pararem de comprar produtos licenciados.

Mas quando a reputação da vítima de trashing não é tão problemática assim, o autor dos ataques precisa culpá-la por problemas que não são seus, ou inventar problemas novos. Afirmações falsas e falácias lógicas colocam a autora como culpada na representação anti-semita dos duendes do Gringotes nos filmes. Implicam que a Rowling faz apologia a ícones autoritários ao representar tais características em personagens e conceitos do mundo ficcional. Que seu racismo passivo é indicativo de uma ideologia fascista escondida atrás da máscara progressista. O problema é que, no que diz respeito ao ativismo de Rowling, ela demonstra que está longe dessas representações. Rowling é uma entidade ATIVAMENTE filantrópica para muitas outras conversas. O dinheiro que você está dando pra ela quando você compra livros e assiste Animais Fantásticos tem boa parte revertida ao conhecimento científico progressista. Querer destituir a autora de sua relevância política parece ser um tiro no pé. Nossa responsabilidade como produtores de conteúdo aqui no Animagos é fazer um balanço do problema e tentar explicitá-lo a quem talvez não seja capaz de percebê-los. Temos que garantir que a transfobia, politicamente relevante no Reino Unido por agora, não seja levada para outros lugares. Nossa responsabilidade é evitar que a ideologia expressa pela nossa autora favorita seja cooptada pelo nosso público. Ela errou e a gente te explica o porquê.

Eu queria agradecer, primeiramente, é claro, ao Theo e á Fabris, por terem aceitado participar e doado um pouquinho do tempo do seu dia pra explicar pra a gente sobre a reação deles sobre o tweet da J. K. As redes sociais deles estão  aí na descrição do podcast, junto com a bibliografia do episódio e as maneiras que você pode entrar em contato com a gente.

Fabris: Eu posso ser encontrada no Twitter como @fabris_mc e também eu posso ser encontrada no podcast Frequências Abertas. A gente fala só sobre o universo de Star Trek em geral. Por falar nisso, a gente vai começar a fazer a cobertura da nova série do Picard, que vai ser lançada agora na Amazon Prime. Então, fica o convite pra vocês acompanharem a série com a gente.

Agradeço também o Sidney, a Fernanda, a Carol, o Renato, o João, que me ajudaram na produção dessa pauta; que foi a nossa primeira tentativa de fazer um conteúdo mais jornalístico pro Animagos. Então, se vocês gostaram, por favor, comenta e passa para as pessoas que vocês acham que vão gostar. E, se quiser entrar em contato, é só enviar um email pra contato@animagos.com.br 

Fabris: As pessoas não precisam olhar pra mim, Fabris, e falar, “Hum, deixa eu ver… Ah, você tem isso… Ah, você tem isso…” Fazer um checklist, pra te dizer se você é ou não mulher. Eu não preciso de uma validação social. Eu sou mulher e ponto. E igual, às vezes, no Harry Potter, acho que é no primeiro filme, o menino falava, “Ah, eu sou meio bruxo e sou meio trouxa”. Ele fala, ele está ali explicando o que ele é. “Ah, eu sou trouxa, sou filho de pais…” Então, é a mesma coisa. Deixa as pessoas se autoafirmarem. Deixa as pessoas dizerem o que elas são  e respeitem isso. Não custa nada você chegar na pessoa e falar, “Você quer ser tratada por qual pronome? Ah, você quer ser tratada como mulher? Você quer ser tratado como homem? Você quer, que, hoje, use linguagem neutra com você?” A pessoa trans não vai se ofender se você ficar nessa dúvida. Pelo contrário. Aí, sim, a partir do momento quando você sabe, “Ah, a Fabris quer ser tratada no feminino”. A partir do momento que você sabe, se você não tratar, aí você está errado. Mas você chegar e perguntar, eu acho que não tem problema nenhum. E tenha amigas e amigos trans. A gente não morde. Realmente, eu me identifico muito com a Lufa-lufa, a gente não é modinha e também não é mauzinho. Então, a gente fica ali. Lufanos são amorzinho de pessoas.

Sobre o autor

Igor Moretto

Igor já trabalhou como tradutor de conteúdo em diversos sites. Hoje, formado em Produção Audiovisual, procura alimentar o Animagos com novidades e é responsável pelo podcast mensal.