Criança Amaldiçoada J.K. Rowling

The Guardian entrevista J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne sobre Cursed Child

Escrito por Igor Moretto

O jornal The Guardian publicou hoje uma entrevista com J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne para falar sobre o começo das prévias de Harry Potter and the Cursed Child, que acontece na próxima terça-feira. A entrevista foi longa, e as informações são mais do que interessantes. Confira a tradução completa!

Além de comentar aspectos da produção da peça, o trio comenta alguns eventos da divulgação, como o racismo sofrido pela atriz Noma Dumezweni, a história do espetáculo  – que antes seria sobre os anos de Harry na casa dos Dursley – e a importância de alguns personagens do epílogo. Leia um trecho.

‘O epílogo do sétimo livro é muito claro quanto a onde eu estava querendo ir’. Rowling diz, devagar. ‘É muito óbvio pelo epílogo que o personagem pelo qual eu mais me interessava era Alvo Severo Potter. E você vê Escórpio na plataforma…’ Ela se acomoda na cadeira, sorrindo, como uma Esfinge.

A tradução da matéria na íntegra está logo abaixo.

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J.K. Rowling: “O mundo de ‘Harry Potter’
está sempre na minha cabeça”.

Traduzido por Igor Moretto, Renato Delgado e Vinicius Ebenau

A autora, o diretor John Tiffany e o dramaturgo Jack Thorne passaram dois anos colaborando em Cursed Child. Na véspera do evento teatral do ano, eles discutem como foi trazer a magia Potter aos palcos…

John Tiffany se ajoelha aos pés de J.K. Rowling. “Olha, eu estou te reverenciando”, ele diz, sorrindo enquanto se levanta com dificuldade do chão. “Tenho no meu contrato que as pessoas devem se ajoelhar para mim em todos os lugares”, ela diz, rindo.

Essa grosseria, feita com o fotógrafo do Observer, que pediu para Tiffany se sentar em um nível mais baixo para criar uma escala crescente de elevação para a foto, revela o carinho e a naturalidade da relação entre a criadora de “Harry Potter” e o diretor que está para trazer uma nova história para o palco na forma de uma peça que se chama Harry Potter and the Cursed Child. O dramaturgo Jack Thorne, a quem foi confiada a tarefa de escrever o roteiro, entra na brincadeira. “Antes de continuarmos, peço desculpas pela minha altura”, ele diz, pairando sobre os dois.

São um triangulo amoroso inesperado: Rowling, loira, de unhas feitas e glamourosa em um vestido envolvente e botas combinando; Tiffany, coçando a nuca, usa um jeans e uma jaqueta; Thorne, magrinho, calvo e jovialmente descontraído, tem uma contemplação intensa. Ainda assim a amizade e naturalidade entre eles combinam perfeitamente com a colaboração que sustentaram por mais de dois anos – e que na terça-feira vai ser revelada pela primeira vez quando as prévias começarem.

A produção, na forma de duas peças interligadas, em um Palace Theatre especialmente reformado em Londres, é de longe o evento teatral do ano. Desde que Rowling anunciou em junho que uma peça sobre seu amado bruxinho estrearia em 2016, as especulações têm sido fervorosas. A antecipação vem aumentando pelo fato de as dicas, que têm sido dadas principalmente pelo Twitter, terem sido poucas.

Tudo que sabemos é que a ação começa em algum momento perto do ponto onde o epílogo do sétimo e último livro – Harry Potter e as Relíquias da Morte – acabou. Nessas páginas finais, vimos um Harry crescido, casado com Gina Weasley, levando o filho Alvo Severo para pegar o trem para Hogwarts. Rony está lá com sua esposa, Hermione, se despedindo de sua filha Rosa. E também tem Escórpio, filho do adversário de Harry na série, Draco Malfoy.

O website [da peça] não ajuda em muita coisa. Lá a gente sabe que Harry agora trabalha para o Ministério da Magia e precisa lidar “com um passado que se nega ficar onde deveria” e que Alvo “precisa lutar com o peso de um legado familiar que ele nunca quis”. As dicas terminam: “Com o passado e presente se fundindo ameaçadoramente, pai e filho descobrem a verdade desconfortável: às vezes, a escuridão vem dos lugares mais inesperados”. Esse mistério todo fez com que houvesse pressa por assentos, que quebrou um recorde para a cena teatral de West End – 175.000 ingressos em 24 horas – e isso tudo por causa do fato de tantos fãs terem tido que comprar ingressos para duas peças para que pudessem experienciar a história completa.

Até aqui, na única entrevista que Rowling, Tiffany ou Thorne darão antes da estreia da peça, um voto de silêncio é proposto. “O epílogo do sétimo livro é muito claro quanto a onde eu estava querendo ir”. Rowling diz, devagar. “É muito óbvio pelo epílogo que o personagem pelo qual eu mais me interessava era Alvo Severo Potter. E você vê Escórpio na plataforma…” Ela se acomoda na cadeira, sorrindo, como uma Esfinge.

Nos encontramos em um clube perto do teatro, apenas treze dias antes da primeira prévia. A expectativa tem aumentado – e não somente entre o público. “Estou acordada desde as quatro da manhã”, diz Rowling. “Estávamos no teatro ontem à noite e eu assisti a uma cena que é muito importante para mim, com figurinos e tudo. E foi super emocionante”.

“Jo esteve presente em muitos momentos do processo”, Tiffany acrescenta. “Muitos”, ela concorda. “Mas ontem à noite foi a primeira vez que estava no teatro e pude ver tudo tão realizado. E foi… extraordinário”.

“Demos um soquinho, né?”, diz Tiffany, sorrindo.

“Bem, eu tentei dar um soquinho”, Rowling responde. “E você tentou apertar minha mão. Não foi nosso momento mais descolado. Mas, para ser justo, estava escuro…” “E eu não sou conhecido por dar soquinhos”, diz o diretor. “Nem eu, na verdade”, adiciona Rowling, “eu só pensei que o momento pedia um”.

É assim que a conversa continua, com muitas risadas que parecem mais reais que nervosas. Thorne lembra a Tiffany que ele teve que pedir para não lhe falarem quanto tempo havia até subirem as cortinas, apesar de tudo ter sido planejado sob precisão de horas, minutos e segundos no painel de ingressos do site. Mas Tiffany parece ser um belo modelo de confiança. “Se você tivesse me perguntado há um ano como eu estaria me sentindo hoje, acho que eu provavelmente teria dito que estaria me desintegrando no canto da sala. Mas me sinto bastante são”.

“Você é tão calmo”, Rowling lança, “eu sou menos calma”.

O começo de Harry Potter and the Cursed Child foi uma reunião entre Rowling e Sonia Friedman, a produtora. Rowling explica: “Você deve imaginar que eu sou convidada a fazer alguma coisa com ‘Harry Potter’ pelo menos cinco vezes por semana desde o fim da série. Sonia só queria explorar uma produção teatral e eu já tinha ouvido falar dela e pensei que gostaria de encontrá-la e ver o que ela tinha para dizer”.

O encontro foi bom, e logo de cara Sonia sugeriu trazer Tiffany, cuja carreira envolvia certa quantidade de magia por ter conjurado ouro em peças como Black Watch, o musical Once e o conto vampiresco Deixa Ela Entrar, que Thorne baseou no livro e filme dinamarquês de mesmo nome. Rowling conhecia o trabalho de Tiffany e tinha assistido ao arco de crescimento da carreira de Thorne como autor de séries de televisão como This is England, The Last Panthers e The Fades, e de peças como Hope (sobre cortes do governo local, também dirigida por Tiffany) e The Solid Life of Sugar Water.

A ideia de contar histórias com tais colaboradores começou a interessá-la. “É por isso que tudo isso aconteceu. Achei que era uma oportunidade única de trabalhar com pessoas tão importantes”, ela explica.

Noma Dumezweni (Hermione), Jamie Parker (Harry) e Paul Thornley (Rony) no Palace Theatre.

Noma Dumezweni (Hermione), Jamie Parker (Harry) e Paul Thornley (Rony) no Palace Theatre.

Quando ela conheceu Tiffany, percebeu que já o tinha visto antes – em meados dos anos 90, quando ela era uma mãe solteira e pobre, escrevendo o que se tornou o primeiro livro de “Harry Potter“, à base de café em três estabelecimentos de Edimburgo. Um de seus refúgios favoritos era o Teatro Traverse, onde Tiffany era assistente de diretor. “Foi um dos primeiros lugares em Edimburgo onde se poderia beber um cappuccino”, lembra Tiffany. “Eu ia sempre lá para encontrar atores e escritores e me lembro de ver uma mulher escrevendo, com um carrinho de bebê do lado. Nós nos cumprimentamos e eu me lembro de Jo uma vez dizer: ‘Você se importa de eu ficar aqui?'”

“Porque eu não tinha comprado muito café”, ela explica, antes de Tiffany adicionar: “Então, um ano mais tarde ou algo do tipo, eu percebi quem tinha sido. E ela não voltou mais ao Traverse”.

Enquanto Rowling começava sua ascensão ao estrelato milionário e ao status de ícone com os sete livros de “Harry Potter” e os oito filmes baseados neles, Jack Thorne saboreava os resultados. “Eu era muito Potterhead”, ele disse com um sorriso largo. “Ainda me considero um Potterhead e espero que os Potterheads não me odeiem muito depois disso ao ponto de não me deixarem mais ser um”.

Ele era um pouquinho velho demais para ser uma das crianças esperando na fila em livrarias à meia-noite para cada lançamento de um livro de “Harry Potter” – essas crianças, que agora têm uma idade entre 25 e 30 anos, fazem parte do público mais empolgado para Harry Potter and the Cursed Child. Mesmo assim, ele era, como se descrevia, um “fã do gênero fantasia”, que lia servilmente todos os livros e ia para todos os filmes assim que lançavam. “Ficava na minha, vestindo uma camiseta de Os Caça-Fantasmas, para as pessoas perceberem que eu estava lá por causa do gênero”, ele diz, com outro riso forçado.

Tiffany não conhecia este passado de fã quando pediu que Thorne se juntasse a ele como escritor de Cursed Child. “Ele me convidou quando nos vimos na estação de metrô a caminho da entrega de prêmios do The South Bank Show”, lembrou Thorne. “Tão glamouroso”, riu Tiffany. “E tão apropriado, a estação de metrô”, adiciona Rowling misteriosamente. Throne continua: “E ele falou: ‘O que acha disso?’ E eu meio que pirei no meio da rua. Mas como eu sou muito tímido, ninguém viu ou percebeu que eu tinha pirado”.

Quando ele e Tiffany foram conhecer Rowling em sua casa em Edimburgo, estava claro que a empatia entre eles era mais forte do que simplesmente entre autor e fã. “Jack e eu somos parecidos em vários aspectos”, Rowling disse. “Nós dois somos – mesmo que pareça o contrário, já que estamos tão animados agora – pessoas um pouco introvertidas, que ficam mais felizes sozinhas, e há muitos paralelos na forma como trabalhamos. Senti que ele era um dos meus”.

Jamie Parker, Sam Clemmett e Poppy Miller como Harry, Alvo e Gina Potter na versão para os palcos.

Jamie Parker, Sam Clemmett e Poppy Miller como Harry, Alvo e Gina Potter na versão para os palcos.

“E nós nos conectamos por causa do corte de cabelo”, ele adiciona, antes de pedir permissão para contar a história a seguir. “Nós estávamos falando sobre a forma como as pessoas não percebem como é terrível ter 10 anos. Foi nesse momento que percebi que talvez nunca fizesse amigos. Outras pessoas teriam amigos e eu não. E eu estava falando sobre comprar um casaco: comprei o mesmo casaco que Matt Cox, que era o garoto mais descolado da turma, e eu tinha que vesti-lo todo dia porque minha mãe tinha comprado e era o único casaco que eu ia ganhar. Ele vestiu o casaco muito melhor e todos acharam que eu estava copiando ele”.

Ele ainda estremece quando se lembra disso. E então, Rowling adiciona rapidamente: “E eu tive a mesma experiência. Aos 10 anos, eu tinha o mesmo corte de cabelo que Susan Hook. Fui para a escola e todo mundo pensou que esse ser humano patético estava tentando ser Susan Hook. Tivemos a mesmíssima experiência de ser profundamente não-descolados. E é isso que te assombra”.

Esse senso de isolamento é o atrativo principal do universo de “Harry Potter” – e por que foi recebido com tanto amor. “Quando você está crescendo, é muito fácil se sentir solitário e inseguro”, diz Tiffany. “E o que Jo conseguiu capturar, eu acho, foi um mundo que fez essas pessoas se sentirem menos solitárias”.

“Exatamente”, Thorne completa enquanto Rowling escuta atentamente. “Eu e minha esposa acabamos de ter um garotinho e demos a ele o nome de Elliott, porque E.T. – O Extraterrestre meio que salvou a minha vida, porque aquele filme fala da existência de algo maior do que nós. O mesmo acontece com Harry e Hermione – existe uma noção sobre as possibilidades do mundo. Jo apenas teceu este feitiço mágico que tornou um trabalho maravilhoso”.

A profundidade de tal identificação é o que torna Rowling tão atenciosa com seus fãs. “Nunca planejei construir uma comunidade imensa, mas acho que não há um só escritor vivo que não iria querer ter tantas pessoas reagindo a seu trabalho”, ela disse. “Foi isso o que aconteceu. As pessoas entraram no mundo junto comigo”.

“O que Jack fala sobre E.T…. é por isso que ele é a pessoa certa para o trabalho, porque ele compreende. Esse é o tom perfeito. A grande razão para as pessoas amarem ‘Potter’ era pela história parecer real. Aquela sensação de que existe mais no mundo. Mais do outro lado. Mesmo que seja uma distância palpável. Há mais. É a promessa de outro mundo, e não precisa ser um mundo mágico, mas para uma criança solitária ou uma pessoa insegura, ou qualquer pessoa que se sinta diferente e isolada, a ideia de ter um lugar onde você faça parte é tudo”.

A confiança e a compreensão entre os colaboradores formou o alicerce da criação de Cursed Child. Através de uma série de conversas e coisas escritas, Rowling contribuiu com ideias. Mas ela é muito clara quando diz que a peça é de Thorne. “No momento em que ele produziu o primeiro esboço, pensei ‘bingo’, é isso”. Ela nunca se imaginou escrevendo, ela mesma, a peça? Afinal, seu outro grande projeto deste ano é sua primeira vez como roteirista para o filme de Animais Fantásticos e Onde Habitam, contando as aventuras de Newt Scamander na Nova York dos anos 20, décadas antes de “Harry Potter” ler seus livros na escola.

“Não sou arrogante ao ponto de pensar, quando se tem um dramaturgo dessa qualidade fazendo isso, em dizer: ‘Bem, nunca fiz isso antes, mas vou fazer’. É uma questão de saber os limites de sua própria competência. Eu estava razoavelmente envolvida nos roteiros de ‘Potter’. Sou mais familiarizada com esse mundo. Eu sentia que tinha um grau de confiança escrevendo um roteiro de filme, mas eu tinha uma confiança extraordinária de que Jack iria escrever a peça que eu iria amar e ele escreveu. Então não se pode pedir algo mais justo do que isso”.

Antes de conhecer J.K. Rowling, a pergunta que eu mais queria fazer era por que ela não conseguia resistir em voltar para as histórias de sua criação mais famosa. Afinal, ela forjou uma carreira pós-“Potter” de bastante sucesso como escritora de livros adultos, como Morte Súbita e a série do detetive Cormoran Strike, escrita sob o pseudônimo de Robert Galbraith, livros que permitiram a ela explorar temas mais violentos e exibir sua predileção por tramas bem amarradas. O último, Vocação Para o Mal, foi indicado a um prêmio na semana passada.

Mesmo assim, ao conhecê-la, fica claro que “Harry Potter” nunca a deixou. “Foram 17 anos e só porque parei na página, não quer dizer que minha imaginação parou”, ela diz. “É como participar de uma corrida muito longa. Não dá para simplesmente cair morto na linha de chegada. Eu tinha alguns materiais, ideias e temas e nós três [ela balança a cabeça para Tiffany e Thorne] criamos uma história”.

Passou-se quase uma década desde que ela terminou de escrever o último livro da série. “Mas carrego esse mundo na minha cabeça o tempo todo”, ela reconhece. “Nunca vou odiar esse mundo. Eu amo esse mundo. Mas há outros mundos onde quero viver também. Para ser perfeitamente honesta, só sinto se eu curto, aí eu faço – e se eu não curtir, não faço”.

“Tem sido incrível por que há raízes por ali e caules por aqui, então está ficando tudo muito consistente, tudo ao mesmo tempo. Estamos compartilhando um terreno entre os mundos”.

Por tudo isso, ela insiste que não poderia simplesmente haver um oitavo livro – ou, da mesma forma, que ela não refaria uma história existente de “Harry Potter” em um novo meio. “Sempre me perguntavam se eu gostaria de fazer um musical, e eu não gosto de musicais”, diz ela, fazendo uma careta. “Teatro, por outro lado, eu amo. Acho que é um mundo sedutor – não há nada como ver um ator trabalhar ao vivo. Mas ninguém tinha proposto qualquer coisa que me deixasse animada assim”.

“Eu acho que, como uma experiência teatral, como uma peça, será diferente de qualquer coisa que as pessoas tenham visto antes. E uma vez que as pessoas tiverem essa experiência teatral, vão entender o porquê de este ter sido o meio perfeito para a história”.

Rowling, Thorne e Tiffany começaram a conversar e compartilhar ideias há mais de dois anos. No começo, depois de algumas discussões e uma oficina, eles chegaram a um ponto no qual perceberam que a história que estavam planejando era muito grande para caber em uma única noite. “Não haveria espaço para os personagens”, diz Thorne. “Seria apenas enredo, enredo, enredo”.

Tiffany explica: “Enquanto o cinema pode devorar uma história, o teatro precisa de espaço e respiração. Quando pensamos em fazê-la em duas partes, primeiro achamos perverso, mas sentimos que não queríamos encurtar a história. Estávamos muito nervosos até o momento em que o público começou a comprar ingressos, e a resposta foi esmagadoramente fantástica, porque o medo era de que as pessoas pensassem que estávamos apenas os explorando. Mas não estávamos, de modo algum”. Rowling acrescenta: “Tivemos espaço para fazer o que tínhamos combinado”.

Os preços dos ingressos estão sendo mantidos relativamente baixos – 250 lugares para cada apresentação custam £ 20 ou menos, e é possível ver as duas partes por £ 30. (Não é obrigatório, no momento da compra, reservar ingressos de ambas as partes de Cursed Child, embora 98% das pessoas até agora tenham feito isso.) Os ingressos mais caros custam £ 65 por apresentação. Os produtores não discutem preços, mas em comparação, também custa £ 65 os melhores lugares para ver Kenneth Branagh em O Anfitrião, enquanto o máximo em The Book of Mormon é £ 150.

Noma Dumezweni caracterizada como Hermione em foto promocional de Cursed Child.

Noma Dumezweni caracterizada como Hermione em foto promocional de Cursed Child.

Controvérsias sobre a duração da peça foram, enfim, evitadas. Controvérsias sobre o elenco, por outro lado, não. Quando foi anunciado que Jamie Parker iria interpretar Harry, Paul Thornley seria Rony e Noma Dumezweni viveria Hermione, toda a atenção centrou-se na notícia de que uma atriz negra iria interpretar alguém do trio mágico. Nas mídias sociais, embora a maioria das reações tenham sido positivas, houve uma forte resposta negativa. Rowling ficou surpresa?

“Com a minha experiência em mídias sociais, imaginei que idiotas iriam agir como idiotas”, diz ela. “Mas o que posso fazer? O mundo é assim. Noma foi escolhida por ser a melhor atriz para o trabalho. Quando John me disse que a escalaria, eu disse, ‘Ó, isso é fabuloso’, porque a tinha visto em uma oficina, e ela realmente fora fabulosa”.

Apesar de Tiffany não saber na época, quando fez sua chamada de elenco, havia de fato uma teoria sobre “Hermione negra” que rondava o mundo “Potter” havia anos. No entanto, a força da reação o surpreendeu. “Não estou acostumado com o Twitter como Jo e Jack, então eu não sabia do seu lado negro, que é simplesmente horrível”, diz ele. “A anonimidade cria horrores, então depois de um tempo eu parei de acessá-lo. Mas o que me chocou foi a forma como as pessoas não podem aceitar que uma pessoa não-branca seja o herói ou heroína de uma história. É, portanto, brilhante que isso tenha acontecido”.

Rowling concorda. Ela diz que sempre houve a possibilidade de Hermione ser negra na forma como ela foi descrita; a cor da pele nunca foi mencionada. “Tive um monte de racistas me dizendo que o fato de Hermione ter turned white’ [“ficado branca”, em tradução literal] – ou seja, perdido a cor de seu rosto após um choque – significa que ela devia ser uma mulher branca, argumento que tenho uma grande dificuldade de aceitar. Mas eu decidi não ficar muito perturbada com isso, e simplesmente afirmei com bastante firmeza que Hermione pode ser uma mulher negra com a minha bênção e entusiasmo absolutos”.

Tiffany não trabalha com mais nada além desse projeto há dois anos, reunindo em torno de si uma equipe de colaboradores de confiança. Para Rowling, aparecer no meio do processo e observá-lo trabalhar ao lado de Thorne tem sido um ensinamento. “É uma linguagem completamente diferente para mim”, diz ela. “Então observar o que Jack pode fazer no papel e sua compreensão sobre o que vai transparecer aos palcos tem sido uma revelação. Eu conheço livros e filmes, mas este é um mundo completamente diferente. Jack tem acesso a uma paleta de cores que eu não tenho pois não compreendo o meio”.

Thorne sorri. “Na verdade, desde que escrevi Deixa Ela Entrar, eu escrevia algo como: ‘Eles correm em uma floresta e em seguida são amarrados em uma árvore e brutalmente assassinados’. Eu só escrevia isso no papel e obrigava John a fazer. E ele fazia”.

O que inspira a criadora, o diretor e o dramaturgo é pensar que, assim como os livros de “Harry Potter” incentivaram uma geração a ler, esta peça de “Harry Potter” possa introduzir um novo público para o teatro. Thorne diz: “A frase que John odeia mais do que qualquer outra é ‘Eu devia ir ao teatro mais vezes’, pois contém a ideia de que ir ao teatro é uma obrigação”. “Como comer legumes”, Rowling brinca. “Ou ir à igreja”, acrescenta Tiffany. “E essa”, continua Thorne, como se cantassem em harmonia, “é a morte do teatro. Acho que esta é uma oportunidade de levar as pessoas que acham que não devem ir ao teatro para o teatro, e fazê-las descobrir que querem ir ao teatro”.

Decoração do Teatre Palace em Londres, que mostra uma criança dentro de um ninho com asas.

Decoração do Palace Theatre em Londres, que mostra uma criança dentro de um ninho com asas.

Esse sentimento tem incentivado Tiffany a tornar a experiência o mais puramente teatral possível. “Não é um espetáculo bombástico que deixa as pessoas presas a seus assentos”, diz ele. “É algo que esperamos que te envolva. É absurdamente ambicioso teatralmente, mas é igualmente sobre o público e a imaginação, que é exatamente com o que um dramaturgo trabalha também”.

Enquanto quase dois meses de ensaios começam, levando até a abertura oficial em 30 de julho, todos esperam que o público mantenha os segredos. “Já passei por isso muitas vezes”, diz Rowling, “e espero que cheguemos lá sem grandes spoilers, simplesmente por que as pessoas terão uma experiência incrível se eles não souberem o que está vindo”.

“De modo geral, os fãs de ‘Harry Potter’ são uma comunidade, eles cuidam uns dos outros, e eles querem ter esse mistério e a sensação de surpresa. Então nós estamos otimistas. Mas isso não vai ser o fim do mundo. Não vamos reclamar demais disso, mas esperamos, pelo bem do público, que consigamos chegar lá”.

Com isso, eles saem, de volta aos ensaios, enquanto o relógio segue implacavelmente, e Harry Potter and the Cursed Child fica mais perto de ser a mais nova parte da história de “Harry Potter” a ser dada à luz.

Sobre o autor

Igor Moretto

Igor já trabalhou como tradutor de conteúdo em diversos sites. Hoje, formado em Produção Audiovisual, procura alimentar o Animagos com novidades e é responsável pelo podcast mensal e o Muffliato.

  • Verônica

    Adorei a entrevista, obrigado por traduzirem!